
Três maritacas resgatadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) foram encontradas com o rosto pintado de amarelo para serem vendidas ilegalmente como papagaios, espécie que costuma ter maior valor no tráfico de animais silvestres. As aves foram apreendidas na Feira de Caxias, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Além da pintura, os traficantes cortaram as penas das asas e da cauda dos animais para facilitar o transporte e a comercialização. As maritacas foram encaminhadas ao Instituto Vida Livre, na Zona Sul do Rio, onde recebem tratamento veterinário e passam por um processo de reabilitação antes de uma possível soltura.
Segundo o médico-veterinário Lucas Rebelo, a tinta utilizada pode causar sérios danos à saúde das aves, como intoxicação e comprometimento do funcionamento do fígado e dos rins. Já o corte das penas prolonga a recuperação, pois impede que os animais retomem o voo até que a plumagem se regenere completamente.
Animais chegaram debilitados
De acordo com a equipe responsável pelo tratamento, as três maritacas apresentavam sinais de maus-tratos e chegaram bastante debilitadas. Uma delas estava cerca de 30 gramas abaixo do peso considerado ideal e precisou ser isolada em um ambiente climatizado para receber cuidados intensivos.
Além das condições físicas, os tratadores relatam alterações no comportamento das aves, que costumam chegar apáticas e assustadas após serem mantidas em cativeiro.
Especialistas afirmam que pintar maritacas para fazê-las parecer papagaios é uma prática recorrente entre traficantes, já que os papagaios costumam alcançar preços mais altos no mercado clandestino. Segundo o veterinário, o Instituto Vida Livre recebe com frequência aves adulteradas para aumentar seu valor de venda.
Tráfico movimenta milhões e ameaça a fauna brasileira
Dados da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) mostram a dimensão do problema. Estima-se que cerca de 38 milhões de animais silvestres sejam retirados da natureza todos os anos no Brasil. Desse total, aproximadamente 90% morrem antes mesmo de chegar ao comprador, em razão das condições precárias de captura, transporte e armazenamento.
Somente em 2025, a unidade do Ibama em Seropédica recebeu 7.409 animais apreendidos. Nos últimos dez anos, mais de 48 mil animais silvestres foram resgatados pelo órgão no estado do Rio de Janeiro.
Para os especialistas, o combate ao tráfico passa, principalmente, pela conscientização da população. A compra de animais silvestres sem origem legal alimenta uma cadeia de maus-tratos, crimes ambientais e ameaça à biodiversidade brasileira.



