
A disputa pelo controle do transporte público no Rio de Janeiro ganhou um capítulo tenso e barulhento nesta segunda-feira, quando o Departamento de Transportes Rodoviários (Detro) rebocou ônibus da nova Linha 77 do BRT. A operação, coordenada pela prefeitura da capital através da Mobi-Rio, pretendia ligar Irajá a Mesquita, na Baixada Fluminense, mas foi interrompida poucas horas após o início.
O episódio não é apenas um conflito administrativo sobre itinerários, mas o reflexo de uma crise política profunda entre o prefeito Eduardo Paes e o governador Cláudio Castro, que travam uma batalha silenciosa por influência em um ano eleitoral decisivo.
O núcleo do impasse reside na competência jurídica para autorizar trajetos que cruzam fronteiras municipais. Enquanto o Estado se ampara no Artigo 242 da Constituição Estadual para afirmar que qualquer linha intermunicipal depende exclusivamente de sua chancela, o município do Rio argumenta que o serviço funciona como uma “conexão de rede”, e não como uma linha rodoviária convencional.
O presidente do Detro, Raphael Salgado, foi incisivo ao declarar que os veículos seriam rebocados sistematicamente caso insistissem na rota, chegando a haver relatos de ameaça de prisão ao secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes, durante a fiscalização.
Eduardo Paes reagiu prontamente nas redes sociais, utilizando um tom de denúncia que mirou diretamente o Palácio Guanabara. Ao classificar a apreensão como uma “covardia” contra os moradores da Baixada, o prefeito acusou o governo estadual de proteger a “máfia dos ônibus intermunicipais”, sugerindo que a eficiência do BRT ameaça interesses econômicos estabelecidos.
Essa retórica ganha força no cenário atual, onde a Baixada Fluminense, com seus quatro milhões de habitantes, consolidou-se como o maior tabuleiro político do estado, sendo alvo direto da estratégia de Paes para sua provável candidatura ao governo em 2026.
A relação entre os dois líderes, que já foi de colaboração, deteriorou-se rapidamente nas últimas semanas após operações policiais envolvendo aliados políticos e a sombra da possível cassação do mandato de Cláudio Castro pelo TSE. Em meio a esse fogo cruzado, a população ficou no meio do caminho até que um acordo paliativo fosse costurado no fim do dia. Ficou decidido o funcionamento de “ônibus experimentais” com 15 veículos para atender a demanda de forma temporária, enquanto prefeitura e estado discutem uma integração definitiva que respeite as regras da Autoridade Metropolitana, criada justamente para evitar que disputas partidárias travem a mobilidade urbana.


