Panorama

Madrugada de Caos no Vidigal: Alvos da Bahia Desencadeiam Operação e Pânico na Zona Sul

Dezenas de turistas presos no Morro Dois Irmãos durante operação no Vidigal — Foto: Reprodução/TV Globo
Dezenas de turistas presos no Morro Dois Irmãos durante operação no Vidigal — Foto: Reprodução/TV Globo

O que deveria ser um feriado de sol e celebração no Rio de Janeiro transformou-se em um cenário de guerra nas primeiras horas desta segunda-feira, 20 de abril de 2026. Uma força-tarefa de elite, composta pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil fluminense e pelo Ministério Público da Bahia, escalou o Morro do Vidigal com uma missão específica: capturar a cúpula do Comando Vermelho que dita as ordens no sul baiano.

O confronto, que começou ainda no escuro da madrugada, não apenas acordou os moradores sob o som de rajadas, mas também paralisou uma das principais artérias da cidade e colocou centenas de visitantes estrangeiros e brasileiros em uma rota de fuga inesperada.

Táticas de Guerrilha e o Bloqueio da Avenida Niemeyer

Para conter o avanço dos blindados da polícia, a facção criminosa não hesitou em transformar a Avenida Niemeyer em uma praça de guerra logística. Criminosos atravessaram um ônibus e espalharam contêineres de lixo da Comlurb ao longo da via, criando barricadas pesadas que isolaram o Leblon de São Conrado.

O bloqueio forçou uma interrupção total do tráfego, deixando motoristas encurralados entre o paredão da encosta e o medo de balas perdidas. A via só foi declarada segura para circulação por volta das 6h50, após uma operação de limpeza da pista e a garantia de escolta por parte da Polícia Militar, que ainda mantém o patrulhamento reforçado em toda a extensão da orla.

Duzentos Turistas no Alvo: O Nascer do Sol sob Fogo Cruzado

Enquanto o asfalto ardia lá embaixo, o topo do Morro Dois Irmãos abrigava um drama particular. Cerca de duzentas pessoas, que haviam subido a trilha para contemplar o nascer do sol — um dos cartões-postais mais disputados do mundo — viram-se subitamente isoladas. Com a base da comunidade cercada e o tiroteio intenso nos acessos principais, o grupo ficou “ilhado” em meio à mata.

Guias turísticos relataram momentos de extrema tensão, onde a única instrução possível era manter todos deitados no chão enquanto o helicóptero da polícia realizava voos rasantes sobre a comunidade. O resgate só foi possível após as 7h20, quando as equipes da Core estabeleceram um corredor de segurança, permitindo que os visitantes descessem as ruelas do Vidigal ladeados por agentes fortemente armados e veículos blindados.

A Festa Interrompida: Quem é “Dada” e a Conexão com o Nordeste

O epicentro de toda a movimentação policial era uma residência alugada no alto do morro, onde Edinaldo Pereira Souza, o “Dada”, promovia uma festa para familiares e amigos próximos. Dada é apontado pelas investigações como o “homem forte” do Comando Vermelho em destinos paradisíacos como Caraíva e Trancoso, na Bahia. Foragido desde 2024 após uma fuga cinematográfica de um presídio baiano, ele encontrou abrigo na Rocinha e, mais recentemente, no Vidigal, sob a proteção da cúpula local da facção.

O Ministério Público baiano monitorava seus passos e identificou que o feriado seria a oportunidade ideal para capturá-lo em um momento de descontração, longe do seu reduto de origem.

Fuga por Passagem Secreta e o Golpe na Estrutura Financeira

Apesar do cerco tático minucioso, a geografia acidentada e as adaptações das casas no morro jogaram a favor do crime. Ao perceber a aproximação iminente dos agentes da Core, Dada utilizou uma passagem secreta estreita e camuflada dentro do imóvel para escapar, abandonando convidados e parentes à própria sorte. No entanto, a operação não terminou sem resultados significativos.

Os agentes conseguiram prender Núbia Santos de Oliveira, esposa de outro traficante de alto escalão, conhecido como “Patola”. Núbia é considerada uma peça fundamental no tabuleiro do crime organizado; as investigações indicam que ela gerenciava o fluxo financeiro e a lavagem de dinheiro da facção, garantindo que os lucros do tráfico no sul da Bahia fossem reintegrados à economia formal sem levantar suspeitas imediatas das autoridades.

Estado de Alerta e Vigilância Contínua

Após o encerramento dos tiroteios mais intensos, o clima no Vidigal permanece de uma calmaria tensa. O comércio tenta retomar a normalidade, mas a presença ostensiva de viaturas e o monitoramento aéreo constante lembram que a operação ainda possui desdobramentos.

A polícia agora foca em perícias no imóvel utilizado por Dada e no cruzamento de dados obtidos com a prisão de Núbia. As autoridades reforçam que a ação foi um passo crucial para mostrar que não há “porto seguro” para lideranças criminosas, independentemente de estarem em seus estados de origem ou escondidos em comunidades cariocas.

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