Panorama

Licença de Bacellar amplia impasse político e acirra disputa pelo comando da Alerj

Após liberdade provisória e afastamento da presidência, movimentações internas aumentam disputa pelo comando da Assembleia e geram acusações de boicote entre parlamentares

Por 42 a 21, Alerj decide revogar a prisão de Rodrigo Bacellar –  CartaCapital
Foto: Thiago Lontra/Alerj

A licença de dez dias solicitada por Rodrigo Bacellar, dias após ser solto com aval da Alerj, abriu uma nova fase de instabilidade política no Legislativo fluminense. A medida ocorre em meio à disputa pelo comando da Casa, a tensões entre aliados e à acusação de um “boicote coordenado” contra deputados que defenderam sua permanência na prisão.

Preso e afastado da presidência da Alerj no dia 3, por determinação do ministro do STF Alexandre de Moraes, o deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil) ganhou liberdade provisória após votação realizada na Casa. No episódio mais recente da crise, divulgado nesta quarta-feira, o parlamentar pediu licença de dez dias, período que, somado ao recesso, pode lhe garantir dois meses para articulações voltadas à sobrevivência política. Em 2026, a Assembleia só volta a se reunir depois do carnaval.

Bacellar foi preso por suspeita de vazar informações sigilosas sobre uma operação da Polícia Federal que tinha como alvo o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, acusado de ligação com o Comando Vermelho. A indefinição sobre seu destino afeta o próprio tabuleiro político do estado: antes da prisão, ele era o substituto direto do governador e chegou a ser apontado pelo próprio Cláudio Castro como possível sucessor.

Aliados tentam convencê-lo de que renunciar à presidência e indicar um sucessor do seu grupo seria a forma mais segura de manter influência na Assembleia. Atualmente, o cargo está ocupado pelo vice-presidente Guilherme Delaroli (PL), que não pode assumir o governo. Em abril, caberá ao presidente da Alerj comandar eventual eleição indireta de governador para um mandato tampão, caso Cláudio Castro deixe o cargo para disputar o Senado. O vice-governador eleito, Thiago Pampolha, já renunciou para assumir vaga no TCE.

Antes da crise, Bacellar era o nome favorito de Castro para assumir esse mandato temporário, respaldado pela máquina pública. Mas perdeu espaço após demitir o secretário estadual de Transportes, Washington Reis, quando ocupava interinamente o governo durante viagem do governador. A prisão aprofundou sua fragilidade política.

A avaliação interna é de que uma eventual saída de Castro colocaria seu substituto direto em posição de sacrifício eleitoral, dada a falta de tempo para apresentar resultados. Segundo um deputado da base, “a situação é delicada. Pelo quadro político atual, se Cláudio Castro deixar o governo, quem assumir não terá tempo de mostrar serviço e tentar a reeleição. Irá para o sacrifício”.

Delaroli afirma que a Assembleia seguirá funcionando normalmente. Na sessão mais recente, declarou que “o que aconteceu com o presidente Rodrigo Bacellar, infelizmente, aconteceu. Hoje eu estou aqui, presente, e a gente tem que tocar as pautas que melhoram a vida do povo do nosso estado”.

Aliados de Castro afirmam que o governador prefere que Bacellar siga afastado, o que abriria caminho para a indicação de Nicola Miccione, secretário da Casa Civil, como eventual substituto no governo. A licença do deputado ocorre quando a Alerj precisa votar temas sensíveis, como o Propag — novo programa federal de renegociação da dívida — e o orçamento do estado.

A tensão aumentou na sessão de ontem após revelação de que aliados de Bacellar buscavam apoio para assumir o comando da Casa. O deputado Thiago Rangel (PMB) afirmou, de forma remota, que “basicamente, o que estão fazendo é velando o nosso presidente ainda vivo, antes de qualquer definição final do STF”.

Dois dias após a libertação do deputado, parlamentares de esquerda que votaram contra sua soltura afirmaram sofrer um “boicote coordenado”, alegando que manobras regimentais estariam travando suas proposições. No campo da oposição, chamou atenção o desgaste interno sofrido por Carla Machado (PT), que votou pela liberdade de Bacellar e virou alvo de investigação da Comissão de Ética do partido. Ela participou da sessão de forma virtual.

A base governista nega retaliação e alega que as ações fazem parte do funcionamento político da Casa. Flávio Serafini (PSOL) relatou episódios que, segundo ele, configuram retaliação direta aos parlamentares que apoiaram a decisão do STF, afirmando que “projetos de parlamentares da esquerda receberam emendas ridículas, visivelmente para serem retirados de pauta. Terça-feira, fui praticamente impedido pelo deputado Rodrigo Amorim de defender emendas ao projeto do Corpo de Bombeiros”.

Rodrigo Amorim (União), líder do governo, rebate e afirma que “não existe recomendação para obstruir qualquer matéria”.

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