Panorama

Novo mapa revela avanço do Comando Vermelho e retração das milícias na Região Metropolitana do Rio

Levantamento do Geni/UFF e do Instituto Fogo Cruzado aponta que quase 4 milhões de moradores viveram sob controle ou influência de grupos armados em 2024, com aumento de 130% da área dominada em 18 anos.

Foto: Divulgação/Geni/UFF

Segundo o estudo, entre 2007 e 2024 a área sob domínio armado aumentou 130,4%, enquanto a população afetada cresceu 59,4%. O relatório diferencia duas categorias centrais: controle, quando o domínio é consolidado e contínuo, e influência, que representa frentes de expansão, zonas de disputa e infiltração armada em espaços onde o Estado ainda atua. Em 2024, 14% da área urbanizada e 29,7% da população estavam sob controle direto de grupos criminosos, enquanto 4,1% do território e 5,3% dos moradores viviam sob influência.

A atualização destaca três movimentos principais: o avanço do Comando Vermelho (CV), a perda territorial das milícias e a consolidação do Terceiro Comando Puro (TCP) como terceira força. O estudo também aponta uma mudança no padrão de expansão criminosa: após anos de “colonização” de áreas vazias, especialmente por milícias, o cenário recente mostra a predominância da “conquista” violenta de territórios já ocupados. Operações do Ministério Público, disputas internas e a morte de lideranças como Wellington da Silva Braga, o Ecko, enfraqueceram as milícias e abriram brechas para a retomada de áreas por facções rivais.

O coordenador do GENI/UFF, Daniel Hirata, afirma:

“Através das categorias de controle e influência e colonização e conquista conseguimos identificar padrões muito mais precisos, definidos e robustos de atuação de cada grupo armado e em diferentes circunscrições geográficas. Isto significa que podemos levantar hipóteses melhores sobre a expansão de cada grupo, no tempo e no espaço, também de como isso foi feito em cada momento e em cada lugar. Temos uma ferramenta analítica que pode ajudar muito o debate público”.

Mesmo em declínio, as milícias ainda detêm a maior extensão territorial: 49,4% da área sob domínio armado, ou 201 km². Já o Comando Vermelho ocupa a primeira posição quando se considera apenas o controle consolidado: 47,5% dos territórios controlados (150 km²). O CV lidera também o número de pessoas sob domínio armado: 47,2% da população nessas condições. As milícias, apesar das perdas recentes, ainda apresentaram crescimento expressivo no período analisado: a população sob seu controle aumentou 106,6%, e a sob controle ou influência, 167,1%.

A distribuição territorial revela dinâmicas distintas. No Leste Fluminense, o CV domina mais de 98% da área sob controle e influência. Na Baixada Fluminense, a disputa se intensificou, com crescimento de 1.608% da milícia em controle territorial desde 2007, ao mesmo tempo em que o TCP ocupa espaços antes dominados pelo ADA.

Na capital, 31,6% da área urbanizada e 42,4% da população estão sob controle ou influência de grupos armados. A Zona Oeste segue como principal reduto miliciano — quase 90% da área dominada — embora com perda de territórios entre 2020 e 2024. No Centro e na Zona Sul, o CV assumiu protagonismo após a perda da Rocinha e do Vidigal pelo ADA. Já a Zona Norte se tornou um dos territórios mais disputados da cidade, com presença simultânea de CV, milícias e TCP.

A diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Olliveira, destaca o impacto dessa nova lógica de expansão:

“Essa é uma virada de chave na segurança pública do Rio. Durante quase duas décadas, a principal forma de os grupos armados crescerem foi a ‘colonização’: uma expansão silenciosa para áreas ainda não dominadas, muitas vezes liderada por milícias em áreas menos densas. A atualização do Mapa mostra o aumento das disputas que resultam em ‘conquista’: para crescer, um grupo precisa tomar a área do outro na base da força. O custo social dessa mudança de ‘colonizar’ para ‘conquistar’ é cobrado diretamente na rotina e na segurança de quem vive nessas áreas mais povoadas. A população passa a conviver com mais tiroteios, mais insegurança e mais medo”.

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