Panorama

Times pequenos expõem abismo estrutural no Cariocão Feminino após episódio do EC Resende jogar com só oito atletas

Partida encerrada por falta de quórum e goleada por 15 a 0 reacendem alerta sobre precariedade dos clubes menores; enquanto Rio receberá Copa do Mundo em 2027, futebol feminino local segue marcado pelo amadorismo

Guerra, em Flamengo x Búzios, pelo Cariocão Feminino 2025 — Foto: Divulgação: Paula Reis/Flamengo
Foto: Paula Reis/Flamengo

O Esporte Clube Resende entrou em campo com apenas oito jogadoras para enfrentar o Fluminense no dia 8 de outubro, pelo Cariocão Feminino, e deixou o gramado antes dos 35 minutos por falta de atletas disponíveis. O episódio, que terminou em goleada tricolor por 15 a 0, escancara um cenário de precariedade que atinge clubes pequenos do futebol feminino no Rio, às vésperas de o estado sediar partidas da Copa do Mundo de 2027.

O duelo entre Fluminense e EC Resende foi interrompido ainda no primeiro tempo, após a goleira Isabella de Oliveira precisar de atendimento aos 27 minutos, reduzindo a equipe a sete jogadoras, o mínimo para que o jogo continue. Sete minutos depois, Ana Gabrielle também passou mal e teve de ser atendida pelos médicos do clube adversário. Sem condições de seguir, a arbitragem encerrou o confronto.

O time só não sofreu um W.O. porque o técnico Carlão reuniu, com dificuldade, oito atletas, duas delas lesionadas, para iniciar a partida marcada para uma quarta-feira, no horário em que muitas das jogadoras estavam em turno de trabalho.

“As meninas dos grandes vivem do esporte. As minhas trabalham. Tem jogadora no McDonald’s, no Bob’s…”, relata o treinador.

Desigualdade no Campeonato Carioca Feminino

A edição de 2024 do Cariocão Feminino contou com oito equipes. Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco chegaram às semifinais, sustentados por estruturas profissionais e investimento. Já Real Heips, Búzios e EC Resende lutaram para se manter na competição.

O Pérolas Negras, quinto colocado, é o único entre os menores que opera dentro de um projeto estruturado, em parceria com a Marinha.

A distância fica evidente quando se observa a realidade do EC Resende, que só conseguiu participar do Estadual graças a uma parceria com o Corte Oito, tradicional equipe da Taça das Favelas. Mas o elenco foi montado às pressas e nenhuma atleta recebe salário.

Entre o futebol e a sobrevivência

A lateral Helen Acioly, de 22 anos, é um dos exemplos mais claros da dificuldade enfrentada pelas jogadoras. Ela trabalha em tempo integral em uma rede de fast food, onde prepara lanches, atende clientes e cuida da limpeza. Só o trajeto até o trabalho consome quatro horas por dia.

Por isso, não conseguiu comparecer ao jogo contra o Fluminense.

Helen começou no futebol em 2018, disputou quatro edições da Taça das Favelas e chegou a ser campeã em 2023. Teve como referência atletas que, como ela, surgiram no Corte Oito e chegaram ao profissional — entre elas Rhaizza, hoje destaque do Bahia no Brasileirão. Mas, na atual situação, admite que o sonho de viver do futebol parece mais distante.

Copa de 2027

O episódio do EC Resende se soma a outros que marcaram o Cariocão Feminino deste ano e acendeu o alerta entre dirigentes e especialistas. O Rio de Janeiro se prepara para receber jogos da Copa do Mundo Feminina de 2027, com estádios, centros de treino e atenção internacional voltada à modalidade.

Mas, no âmbito local, ainda convivem clubes sem estrutura mínima, atletas que precisam conciliar trabalho, estudo e futebol, e competições marcadas por ausência de condições básicas.

A partida encerrada por falta de jogadoras é um retrato fiel do abismo que separa a elite do futebol feminino das equipes amadoras, e expõe a urgência de investimento e políticas públicas que deem suporte às bases da modalidade no estado.

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