Panorama

Dez dias após megaoperação, criminosos retomam posições na Serra da Misericórdia, entre Alemão e Penha

Mesmo com 117 mortos e 99 presos, equipe do Extra flagra ponto de observação ativo do Comando Vermelho na mata; secretário de Segurança admite que combate ao crime será “de longo prazo”

Ponto de observação no alto da Serra da Misericórdia, que separa os complexos do Alemão e da Penha, é flagrado pelo EXTRA
Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Nove dias após a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, que deixou 117 suspeitos e quatro agentes mortos, o Comando Vermelho (CV) voltou a ocupar posições estratégicas na Serra da Misericórdia, região de mata que separa os complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte. Uma equipe do Globo flagrou criminosos atuando em um ponto de observação ativo, em área próxima ao Engenho da Rainha, com vista privilegiada para vias importantes da região.

O local, instalado ao lado de uma pedreira, abriga uma estrutura de madeira coberta por telhas de alumínio. Um homem vestido com roupa camuflada, a mesma tática usada pelos traficantes durante o confronto, foi visto monitorando o entorno. A posição elevada permite visão sobre a Estrada Adhemar Bebiano e comunidades próximas.

O secretário de Segurança Pública do Rio, Victor César dos Santos, reconheceu que a operação, que mobilizou 2.500 policiais, não seria suficiente para eliminar de imediato a presença do crime organizado.

“Não consigo imaginar, dentro desse histórico de décadas, que uma única operação vá acabar com a criminalidade enraizada naquela região. O desafio é grande, mas não vamos parar enquanto esses criminosos não forem presos”, afirmou o secretário.

Durante a megaoperação, agentes do Bope, Batalhão de Choque, Recom, 3º BPM (Méier) e 41º BPM (Irajá) cercaram a área, forçando traficantes a recuar para a mata, estratégia apelidada de “Muro do Bope”. Segundo a polícia, a região é dominada por até mil criminosos ligados ao CV.

Monitoramento e denúncias

Desde o dia da operação, o Disque Denúncia recebeu 327 relatos sobre movimentações criminosas nas regiões do Alemão e da Penha. Desses, 127 (38,8%) apontam informações sobre o paradeiro de Edgar Alves Andrade, o Doca, chefe do Comando Vermelho na Penha, que segue foragido. Há recompensa de R$ 100 mil por informações que levem à sua prisão.

Santos destacou que os principais líderes da facção continuam sendo monitorados:

“Essas pessoas têm dedicação exclusiva de seguranças e infraestrutura para esconderijos e fugas. Estamos acompanhando cada passo”, disse o secretário.

Rotina sob tensão

Apesar da retomada parcial da normalidade, moradores relatam medo e silêncio nas comunidades. Comércios reabriram, transportes voltaram a circular e escolas retomaram as aulas, mas as barricadas do tráfico permanecem nas entradas da Vila Cruzeiro e do Alemão.

“Tudo voltou a ser como antes, só que agora tem sangue”, resumiu um morador do Morro do Alemão, de 38 anos.

O cenário nas ruas revela ferros fincados no asfalto, carros circulando com o pisca-alerta ligado e caminhões de lixo retomando o trabalho entre os bloqueios. Mesmo com o impacto da operação, o domínio territorial do tráfico ainda é evidente — um retrato de como o “novo normal” das comunidades cariocas continua a ser marcado pela presença armada e pela rotina de medo.

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