Panorama

Governo federal vê movimento político em fala de Cláudio Castro sobre “falta de apoio” e cita atendimento a pedidos anteriores

Aliados de Lula afirmam que o governador do Rio não solicitou ajuda do Ministério da Justiça para a operação desta terça; Defesa lembra que pedido de blindados exige GLO autorizada pela Presidência

Integrantes do governo Lula rebatem Castro e negam que pedidos de colaboração  tenham sido rejeitados
Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo

Integrantes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que as declarações do governador do Rio, Cláudio Castro (PL), atribuindo à falta de apoio federal a crise de segurança, antecipam a disputa eleitoral de 2026. Após a megaoperação contra o Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão, Castro disse que o estado está “sozinho” e que pedidos de ajuda foram negados. A cúpula do Ministério da Justiça afirma que não houve solicitação de apoio para a ação desta terça e cita colaborações anteriores. Já o Ministério da Defesa lembra que a cessão de blindados das Forças Armadas depende de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), prerrogativa da Presidência.

A leitura no Palácio do Planalto é que a escalada do discurso de Cláudio Castro busca deslocar o debate de segurança para o terreno político. Segundo a cúpula do Ministério da Justiça, o governador não chegou a pedir apoio da pasta para a operação desta terça-feira, que mirou bases do Comando Vermelho na Penha e no Alemão. Integrantes do governo afirmam ainda que, em ocasiões anteriores, quando Castro foi a Brasília solicitar transferência de presos de facções para penitenciárias federais e apoio aéreo, os pedidos foram atendidos.

Na avaliação do Ministério da Defesa, houve erro de procedimento na forma como o governo fluminense encaminhou pedidos por blindados. De acordo com integrantes da pasta, solicitações desse tipo não são feitas diretamente às Forças Armadas: cabe ao estado demandar ao governo federal, e à Presidência da República analisar e autorizar uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO), instrumento que prevê o emprego dos militares em ações de segurança pública.

Em entrevista, Castro reiterou que tem encontrado barreiras para obter equipamentos federais e associou a negativa ao posicionamento do governo Lula sobre GLO: “Já entendemos haver uma política de não ceder. Disseram que precisa de uma Garantia de Lei e Ordem (GLO). Depois disseram que poderiam emprestar e voltaram atrás porque o servidor que opera o veículo é federal e deveria ter o GLO, enquanto o presidente é contra a GLO. Entendemos que a realidade é essa e não vamos ficar chorando pelos cantos” afirmou Castro.

No entorno do governo federal, auxiliares também lembram que não é a primeira vez que o governador tenta deslocar a responsabilidade sobre a crise de segurança para Brasília ou para decisões do Supremo Tribunal Federal que impõem restrições a operações policiais. Além disso, citam episódios de cooperação recentes, como o envio da Força Nacional e ações da Polícia Rodoviária Federal contra o crime organizado.

O embate político ganhou novo fôlego nas redes sociais, onde aliados de Castro, a exemplo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), passaram a compartilhar vídeos de criminosos arremessando explosivos contra policiais na operação desta terça. “Nada me surpreende depois que Lula disse que os traficantes são vítimas dos usuários”, postou o senador.

A fala do presidente, feita na última sexta-feira ao comentar a política antidrogas dos Estados Unidos no exterior, gerou reação imediata da oposição: “Toda vez que a gente fala sobre combater as drogas, possivelmente fosse mais fácil a gente combater os nossos viciados internamente. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também. Ou seja, você tem uma troca de gente que vende porque tem gente que compra, de gente que compra porque tem gente que vende. Então, é preciso que a gente tenha mais cuidado no combate à droga”, disse o presidente.

Diante da repercussão, Lula se retratou e afirmou que a frase foi mal formulada: “Fiz uma frase mal colocada nesta quinta e quero dizer que meu posicionamento é muito claro contra os traficantes e o crime organizado. Mais importante do que as palavras são as ações que o meu governo vem realizando, como é o caso da maior operação da história contra o crime organizado, o encaminhamento ao Congresso da PEC da Segurança Pública e os recordes na apreensão de drogas no país. Continuaremos firmes no enfrentamento ao tráfico de drogas e ao crime organizado.”

A megaoperação desta terça mirou 51 mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho, sendo 30 de fora do Rio, apontados como escondidos nos complexos da Penha e do Alemão, identificados pela investigação como bases do projeto de expansão territorial da facção. Até o fim da manhã, 56 pessoas haviam sido presas e 31 fuzis apreendidos, em uma ação que mobilizou 2,5 mil policiais e promotores do Gaeco/MPRJ.

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