Panorama

A cidade que afunda nos buracos da Águas do Rio

O que seria uma nova era no saneamento virou um pesadelo urbano com buracos, caos e descaso

Foto: Reprodução/Setembro2025/Folha do Pacheco

O Rio de Janeiro virou um campo minado. Desde que a concessionária Águas do Rio assumiu os serviços de abastecimento de água e esgoto, o que era para ser sinônimo de progresso se transformou em um pesadelo urbano.Por onde se anda, há buracos abertos, calçadas destruídas e um cenário de abandono que cresce a cada semana. A promessa de modernização deu lugar a uma rotina de transtornos, riscos e desrespeito.

A empresa chegou anunciando investimentos bilionários, eficiência operacional e um novo tempo para o saneamento Fluminense. No entanto, o que os cariocas testemunham é o oposto: uma cidade esburacada, mutilada e esquecida.

A geografia do caos

Do Leme à Baixada, da Tijuca a Campo Grande, as marcas da Águas do Rio estão por todos os lados, não nos encanamentos subterrâneos, mas nas cicatrizes visíveis nas ruas e calçadas. Em Copacabana, moradores denunciam buracos deixados abertos por semanas, sem qualquer sinalização. Em Madureira, um trecho da Rua Dagmar da Fonseca virou um lamaçal após uma intervenção da empresa. Em Bangu, calçadas inteiras foram arrancadas e mal repostas, com pedras portuguesas jogadas de qualquer forma.

E o padrão se repete: a empresa chega, cava, instala seus equipamentos e desaparece. O conserto, quando vem, é improvisado. Um remendo de areia, um asfalto irregular, uma calçada mal feita e o problema passa a ser do morador, do pedestre, da cidade.

Obras sem aviso, sem controle e sem respeito

As intervenções da concessionária são frequentemente realizadas sem aviso prévio e, em muitos casos, sem a devida autorização da Prefeitura. Síndicos relatam que operários aparecem de madrugada ou aos fins de semana, quebrando calçadas e abrindo valas sem qualquer comunicação com os moradores.

Na Zona Norte, o cenário é ainda mais crítico: ruas inteiras foram transformadas em verdadeiros canteiros abandonados, com crateras abertas há meses, dificultando o acesso de ambulâncias, cadeirantes e idosos.

Multas ignoradas, leis desrespeitadas

A Secretaria Municipal de Conservação já notificou e multou a Águas do Rio diversas vezes por abrir buracos e não realizar a recomposição adequada do piso. Ainda assim, o problema se repete em escala industrial.
A legislação municipal é clara: qualquer intervenção em calçadas públicas ou privadas exige autorização, e a empresa responsável deve reparar integralmente os danos.
Mas na prática, a concessionária age como se estivesse acima da lei , uma gigante do saneamento operando sem saneamento moral ou urbano.

Risco e indignação

Foto: Reprodução da Internet

Além do impacto visual e da sujeira, há o perigo. Buracos abertos sem sinalização têm causado quedas e acidentes graves. Idosos tropeçam em valas mal tampadas; cadeirantes precisam desviar para o asfalto; crianças se machucam brincando onde antes havia uma calçada segura. O que era apenas transtorno virou ameaça à segurança pública.

Nos bairros mais afetados, cresce a indignação. Moradores se organizam em grupos, trocam fotos, localizações e relatos diários. Muitos já recorreram ao Ministério Público e à Defensoria Pública exigindo reparação e responsabilização da concessionária.

Uma cidade sitiada por buracos

O que deveria ser um serviço essencial, como levar água de qualidade e garantir saneamento básico se tornou sinônimo de violência urbana disfarçada de obra pública. A cada nova intervenção, o Rio perde um pouco mais da sua mobilidade, da sua beleza e da sua dignidade.

O que resta é um sentimento de abandono coletivo. Ruas perfuradas, calçadas quebradas, moradores indignados e uma concessionária que segue cavando, como se o chão carioca fosse um território sem dono.

Enquanto o poder público hesita e a população protesta, o Rio afunda não na água que deveria correr pelos canos, mas na lama do descaso.

Até quando?

Foto: Reprodução da Internet

A Águas do Rio tem obrigações legais e morais claras: reparar, respeitar e preservar o espaço urbano. Mas até agora, o que ela entrega é destruição. O Rio de Janeiro não é um canteiro experimental, nem propriedade privada de concessionárias. É uma cidade viva, que sangra a cada buraco deixado para trás. Até quando o carioca vai assistir, impotente, à própria cidade sendo perfurada em nome de um progresso que nunca chega?

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