Polícia Federal investiga organização suspeita de movimentar mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos por meio de uma rede de postos de combustíveis

O deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), segundo candidato mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), com 197.178 votos, foi preso na manhã desta quinta-feira (15), durante a oitava fase da Operação Unha e Carne. O delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do estado, também foi detido.
A operação, deflagrada pela Polícia Federal (PF), com apoio da Polícia Civil, investiga uma organização suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio para lavar dinheiro. Segundo a PF, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou que o grupo movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.
Canella foi preso na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio, enquanto Amim foi localizado em Niterói. Outras quatro pessoas, entre elas policiais civis, também foram presas. Os seis alvos tinham mandados de prisão preventiva.
Mandados e bloqueio de empresas
Além das prisões, os agentes cumpriram 16 mandados de busca e apreensão em diferentes municípios do estado: Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios e Nova Iguaçu.
As investigações indicam a participação de agentes públicos e a existência de articulação político-institucional na organização. A Justiça determinou o sequestro de bens e valores dos investigados e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas ligadas ao esquema. Desse total, 96 são postos de combustíveis.
Os suspeitos poderão responder, conforme a participação de cada um, por organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, entre outros crimes que possam ser identificados durante as investigações.
A ação faz parte da Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para desarticular organizações criminosas que atuam no estado do Rio, seguindo diretrizes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Em nota, a Polícia Civil informou que sua Corregedoria-Geral participa da operação em apoio à PF. A instituição declarou que não compactua com desvios de conduta e que adota medidas administrativas e disciplinares diante de indícios de irregularidades.
A reportagem informou que buscava contato com as defesas dos investigados e que o espaço permanecia aberto para manifestações.
Histórico da Operação Unha e Carne
A Operação Unha e Carne teve sua primeira fase deflagrada em dezembro de 2025, com foco no então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, investigado por suspeita de vazamento de informações sigilosas relacionadas à prisão do ex-deputado estadual conhecido como TH Joias. Bacellar foi preso na ocasião e posteriormente solto.
Na segunda fase, a investigação atingiu o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), por suspeita relacionada ao vazamento de informações sobre o caso TH Joias.
A terceira fase terminou com uma nova prisão de Rodrigo Bacellar. Na quarta, a PF prendeu o então deputado estadual Thiago Rangel (Avante), em uma investigação sobre possíveis fraudes em compras de materiais e contratações de serviços da Secretaria de Estado de Educação do Rio. Segundo a PF, ele teria oferecido cargos ao traficante conhecido como Júnior do Beco.
A quinta fase, também em julho, investigou suspeitas de lavagem de dinheiro ligadas à cúpula do jogo do bicho e possíveis conexões com integrantes dos poderes Executivo e Legislativo. Entre os alvos estavam o contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar e o pastor Márcio Poncio. O ex-deputado federal Marco Antônio Cabral também foi alvo de busca e apreensão.
Na sexta fase, em julho, Márcio Canella foi preso por suspeita de posse ilegal de arma de fogo de calibre restrito. Ele permaneceu detido por três dias e, posteriormente, passou a cumprir medidas cautelares. De acordo com o relato da reportagem, uma decisão posterior do ministro Alexandre de Moraes, do STF, revogou restrições que incluíam o uso de tornozeleira eletrônica e o recolhimento domiciliar noturno e nos fins de semana. Marcus Amim também foi alvo daquela etapa.
Em setembro, durante a sétima fase, o vereador Jorge Canella (União Brasil) foi preso em flagrante por posse irregular de arma de fogo de uso restrito. Na ocasião, foram apreendidos dois fuzis e uma submetralhadora.
Apesar de compartilharem o sobrenome e manterem proximidade política, Jorge Canella não tem parentesco com Márcio Canella. Os dois são aliados há anos e já se referiram publicamente um ao outro como “irmão que a vida me deu”.
Trajetória política de Márcio Canella
Márcio Correia de Oliveira, conhecido como Márcio Canella, foi eleito deputado estadual com 197.178 votos e retornará à Alerj após ter comandado a Prefeitura de Belford Roxo, na Baixada Fluminense.
Sua trajetória política começou em 2012, quando foi eleito vereador de Belford Roxo. Em 2014, conquistou seu primeiro mandato como deputado estadual. Depois, foi eleito vice-prefeito do município e voltou à Assembleia Legislativa, onde exerceu três mandatos consecutivos.
Em 2024, venceu a eleição para prefeito de Belford Roxo. No ano seguinte, deixou o cargo com a intenção de disputar uma vaga no Senado em 2026. Posteriormente, mudou de estratégia e concorreu novamente à Alerj, sendo eleito.
Quem é Marcus Amim
Natural de Niterói e formado em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em 2003, Marcus Amim tem mais de 20 anos de atuação na Polícia Civil. Como delegado titular, comandou a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), a Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme) e a 27ª DP, em Vicente de Carvalho.
Em junho de 2023, assumiu a presidência do Departamento Estadual de Trânsito do Rio de Janeiro (Detran-RJ). Quatro meses depois, tornou-se secretário de Polícia Civil, após uma mudança na legislação estadual que permitiu a nomeação de delegados com pelo menos 15 anos na instituição, independentemente do tempo no cargo específico de delegado.
Amim deixou a secretaria em setembro de 2024 e, no mesmo mês, assumiu o Departamento de Segurança da Alerj. Foi exonerado em dezembro de 2025.
Ao longo da carreira, recebeu medalhas concedidas pela Alerj e pela Câmara Municipal de Niterói, além de condecorações da própria Polícia Civil.
A investigação sobre a organização suspeita de lavagem de dinheiro segue em andamento.



