Panorama

Operação da Polícia Federal investiga suposto esquema de venda de sentenças no TJ de Mato Grosso

Faissal Calil (à direita) já foi assessor do desembargador Dirceu dos Santos (à esquerda)
Divulgação

 

A Polícia Federal deflagrou nesta segunda-feira (8) a Operação Gemini, que investiga um suposto esquema de venda de decisões judiciais e lavagem de dinheiro envolvendo integrantes do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT). Entre os alvos da ação estão o desembargador afastado Dirceu dos Santos e o deputado estadual Faissal Calil (PL), que tiveram endereços alvo de mandados de busca e apreensão.

Ao todo, a operação cumpre medidas judiciais contra seis investigados, incluindo buscas domiciliares, buscas pessoais e quebras de sigilos bancário, fiscal e telemático. O objetivo é aprofundar as investigações sobre a possível comercialização de sentenças judiciais e movimentações financeiras consideradas incompatíveis com os rendimentos declarados pelos envolvidos.

Dirceu dos Santos foi afastado de suas funções em março deste ano após investigações apontarem a existência de um suposto esquema de venda de decisões judiciais em seu gabinete, com a participação de empresários e advogados. Na ocasião, a Corregedoria Nacional de Justiça e a Polícia Federal realizaram diligências na sede do Tribunal de Justiça de Mato Grosso para coleta de documentos e extração de dados eletrônicos.

Segundo informações das investigações, o magistrado apresentou uma evolução patrimonial considerada incompatível com seus rendimentos como desembargador. Levantamentos apontam que, nos últimos cinco anos, houve movimentação patrimonial superior a R$ 14,6 milhões.

A análise realizada pela Corregedoria identificou ainda a aquisição ou negociação de 92 imóveis vinculados ao desembargador. Somente entre 1986 e 2025 foram registradas 51 operações de compra de imóveis, que somam mais de R$ 7,1 milhões em valores declarados.

De acordo com a Polícia Federal, a evolução patrimonial livre de dívidas alcançou aproximadamente R$ 10,2 milhões nos últimos cinco anos, além de uma sobra financeira estimada em R$ 9,6 milhões no mesmo período. Os investigadores consideram os valores incompatíveis com a remuneração legalmente recebida pelo magistrado.

A apuração também identificou variações patrimoniais sem comprovação de origem lícita nos anos de 2021, 2022 e 2023. O destaque é para o ano de 2023, quando foi apontada uma diferença patrimonial superior a R$ 1,9 milhão sem justificativa financeira comprovada.

As investigações apontam ainda que o suposto esquema teria sido intermediado pelo advogado Roberto Zampieri, conhecido como “lobista dos tribunais”. Ele foi assassinado a tiros em dezembro de 2023, em Cuiabá, e seu nome passou a figurar em diversas apurações relacionadas a suspeitas de influência em decisões judiciais.

O deputado estadual Faissal Calil também aparece nas investigações por ter atuado anteriormente como assessor do desembargador Dirceu dos Santos antes de ingressar na vida política. Ele trabalhou no gabinete do magistrado como assessor técnico de projetos e acórdãos.

Até o momento, os investigados não haviam se manifestado oficialmente sobre as novas diligências realizadas pela Polícia Federal. As investigações seguem em andamento para apurar a extensão do suposto esquema e identificar possíveis novos envolvidos.

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