Polícia Civil conduz 33 pessoas para depoimentos e apura participação de taxistas, captadores de passageiros e empresa de locação em fraude

Uma pequena placa eletrônica escondida dentro de táxis é um dos principais alvos de uma operação deflagrada nesta quinta-feira (8) para investigar um esquema de cobranças abusivas no entorno do Aeroporto Internacional do Galeão, na Ilha do Governador. Segundo a Polícia Civil, o mecanismo permitia aumentar artificialmente o valor das corridas e fazia passageiros pagarem até 50% acima da tarifa normal.
Até o momento, 15 taxistas e 18 pessoas conhecidas como “jóqueis”, que atuavam na captação de passageiros, foram levados à Cidade da Polícia para prestar esclarecimentos.
Como funcionava a fraude
A investigação começou depois que um passageiro denunciou ter percebido um aumento repentino no taxímetro durante uma corrida. Ao chegar ao destino, ele constatou que havia desembolsado cerca de metade a mais do que pagaria pela tarifa regular.
O veículo foi localizado e submetido a perícia pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE). Os peritos encontraram uma placa eletrônica conectada ao taxímetro.
O equipamento interferia nos pulsos enviados pelo sensor do carro e fazia o aparelho registrar uma distância maior do que a efetivamente percorrida. Instalado atrás de um botão do porta-malas, podia ser acionado discretamente pelo motorista e elevar de uma vez o valor da corrida em aproximadamente 20%.
A polícia também encontrou registros de viagens que teriam chegado a mais de R$ 900 em deslocamentos para a Zona Sul.
Investigação aponta estrutura organizada
Com o avanço das apurações, os investigadores identificaram indícios de que a adulteração não era uma prática isolada entre motoristas. A suspeita é de que a instalação dos dispositivos fizesse parte de uma estrutura organizada.
Documentos obtidos durante a investigação indicam que uma empresa responsável pela locação dos táxis exigiria que os equipamentos fossem instalados em uma oficina específica, em Piedade. A frota relacionada ao grupo pode ter cerca de 200 veículos.
Os policiais também investigam a possibilidade de alguns carros já serem entregues aos motoristas com o sistema fraudulento instalado e configurado para funcionar automaticamente.
“Jóqueis” abordavam passageiros no aeroporto
Outra frente da investigação envolve os chamados “jóqueis”. Segundo a polícia, eles abordavam passageiros, principalmente turistas e pessoas que não conheciam o Rio, e os encaminhavam para veículos que não tinham autorização para operar dentro do terminal.
Os captadores receberiam comissão pelos passageiros direcionados aos táxis. A investigação aponta ainda que a atuação desse grupo seria coordenada por um integrante do tráfico de drogas da comunidade do Barbante, na Ilha do Governador, localizada nas proximidades do aeroporto.
A polícia afirma que houve tentativa de pressionar taxistas autorizados a trabalhar no Galeão para que também atuassem em conjunto com os captadores, mas a estratégia não teria conseguido se estabelecer.
Mandados foram cumpridos em diferentes pontos
A ação é realizada pela Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), pela Delegacia de Atendimento Policial do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro (Dairj) e pela Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat).
Os agentes cumprem mandados de busca e apreensão em endereços no Rocha e em Piedade, na Zona Norte, no Centro do Rio e no próprio terminal aeroportuário. A operação conta ainda com apoio da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant).
Entre os alvos estão a estrutura operacional e o pátio de uma empresa de locação de táxis, uma empresa ligada ao grupo e a oficina apontada como responsável pela instalação dos dispositivos.
Polícia encontrou celulares roubados
De acordo com o delegado Victor Tuttman, da DRCPIM, um dos taxistas investigados chegou a tentar retirar o equipamento do veículo após ser denunciado por um passageiro, em janeiro deste ano.
Além dos dispositivos e documentos que ainda serão analisados, um dos táxis vistoriados tinha dez celulares roubados. A polícia investiga se os aparelhos pertenciam a passageiros que esqueceram os objetos durante as corridas e não tiveram os bens devolvidos.
Os investigados podem responder por organização criminosa, estelionato, crimes contra as relações de consumo e contra a economia popular.
A Polícia Civil orienta passageiros que desembarcam no Galeão a utilizar apenas serviços credenciados, dando preferência aos táxis nos pontos autorizados e às cabines localizadas dentro do aeroporto.



