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Panorama

Morte após Maratona de Niterói leva Federação de Atletismo do RJ a cobrar regras mais rígidas

Entidade defende protocolos médicos mais rigorosos e critérios para provas longas; organizadora afirma que evento tinha oito ambulâncias, permit e todas as autorizações exigidas

Maratona do Rio de 2023 — Foto: Reprodução: Prefeitura do Rio

A morte do empresário Jair Vieira Junior, de 53 anos, após a conclusão da Maratona de Niterói, colocou em discussão a segurança das corridas de rua no Rio de Janeiro. Conhecido como Juninho, ele completou os 42 quilômetros da prova em 27 de setembro, recebeu a medalha e passou mal logo depois. Foi atendido pela equipe médica do evento e levado ao Hospital Municipal Carlos Tortelly, em Niterói, mas não resistiu.

Após o caso, a Federação Estadual de Atletismo do Rio de Janeiro passou a defender mudanças nas regras para esse tipo de competição. Entre as propostas estão protocolos médicos mais detalhados, fiscalização da estrutura de atendimento e critérios de preparo para quem participa de provas de longa distância.

Empresário Jair Vieira, conhecido como Juninho, morreu após participar da Maratona de Niterói — Foto: Reprodução/ redes sociais

Treinadores defendem exigência de índice

Profissionais ouvidos pela reportagem avaliam que corridas mais longas deveriam ter algum tipo de filtro para os participantes.

O professor de educação física e treinador Wallace Barbosa defende que provas acima de 15 quilômetros exijam um índice mínimo. Para ele, a medida poderia reduzir a participação de corredores sem preparo suficiente, embora não elimine completamente o risco de mal-estar.

O treinador André Guilherme também é favorável à exigência e cita a Corrida da Ponte, que já adota esse critério. Ele afirma que o corredor precisa conhecer seus limites e ter preparação adequada antes de disputar provas de longa distância.

A professora de educação física e corredora Luana Cabral afirma que tem presenciado cada vez mais participantes passando mal durante as corridas. Na avaliação dela, o crescimento do número de eventos e de inscritos exige maior atenção à saúde dos atletas.

Federação quer ampliar controle sobre atendimento médico

O presidente da Federação Estadual de Atletismo do Rio, Robson Maia, afirmou que a entidade defende uma fiscalização mais rigorosa da estrutura oferecida aos corredores.

Entre os pontos que deveriam ser aprimorados, segundo ele, estão os recursos disponíveis nas ambulâncias e os protocolos utilizados pelas equipes médicas. Federações, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e a Associação Brasileira dos Organizadores de Corrida de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo) discutem a criação de procedimentos mais específicos para atendimentos durante as provas.

Maia também afirma que a federação vem orientando organizadores sobre a necessidade de seguir as normas de segurança.

Maratona de Niterói tinha oito ambulâncias

A organização da prova afirma que cumpriu as exigências previstas para a realização do evento.

Karen Casalini, diretora da 3A Eventos, responsável pela Maratona de Niterói, informou que a competição tinha oito ambulâncias distribuídas pelo percurso, permit, autorização do Corpo de Bombeiros e seguro contra acidentes.

Segundo ela, Jair recebeu atendimento imediatamente após apresentar o mal-estar e a organização também prestou assistência à família.

Karen afirmou ainda que o evento registrou um número elevado de atendimentos médicos. Para ela, parte do problema está relacionada à participação de pessoas que não estariam preparadas para provas de longa distância.

Participantes, entretanto, relataram à reportagem episódios de demora em atendimentos considerados de menor gravidade durante a corrida.

O que é o permit

O permit é uma autorização vinculada às normas da CBAt e, de acordo com a federação, envolve a verificação de diversos aspectos da competição.

Entre eles estão a medição do percurso, a localização dos pontos de hidratação, a quantidade de ambulâncias e profissionais de saúde de acordo com o número de atletas e a disponibilidade de banheiros químicos.

A Maratona de Niterói tinha o documento, segundo Robson Maia. O presidente da federação afirmou, porém, que ainda não havia recebido o relatório produzido após a prova e, por isso, não poderia apontar eventuais falhas na estrutura.

Federação estima que 80% das corridas do Rio não têm permit

Robson Maia estima que cerca de 80% das corridas realizadas na cidade do Rio não solicitam o permit da federação ou da confederação. Ele ressalta que o percentual não é oficial, pois, segundo ele, a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer não fornece à entidade todos os dados sobre os eventos realizados.

A federação acompanha provas anunciadas publicamente e pode emitir notificações extrajudiciais quando identifica problemas. Maia citou como exemplo uma corrida em Duque de Caxias que, segundo a entidade, apresentava irregularidades. O permit foi negado, mas a competição acabou sendo realizada mesmo assim.

Para o dirigente, o principal problema é que a federação não possui poder de polícia para impedir uma corrida sem a chancela da entidade.

Prefeitura diz que exige estrutura médica para liberar provas

A Prefeitura do Rio informou que a autorização para corridas depende da apresentação de documentos e da estrutura necessária para a realização do evento.

Entre as exigências estão documentação técnica da estrutura, autorização do Corpo de Bombeiros, licença sanitária, equipe médica, limpeza e pontos de hidratação, além de outras liberações que podem variar conforme o local da prova.

Segundo o município, 195 corridas de rua foram realizadas na cidade em 2025, enquanto a previsão para 2026 é de 239 eventos.

A prefeitura afirma ainda que promove reuniões semanais com organizadores, CET-Rio, Bombeiros e Guarda Municipal para planejar a operação e garantir a segurança.

Sobre o permit, o município explicou que o documento funciona como uma chancela esportiva para homologação dos tempos e defendeu uma negociação entre a federação e os organizadores para que o custo da autorização não inviabilize as provas.

Federação critica falta de participação no processo

Maia afirma que a autoridade esportiva deveria ter uma participação maior no processo de autorização das corridas. Segundo ele, atualmente as provas passam por diferentes órgãos municipais e estaduais, como Comlurb, Iphan, Exército, CET-Rio, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar.

Na avaliação do presidente da federação, a ausência de uma atuação mais efetiva da entidade esportiva dificulta o controle sobre aspectos técnicos das competições.

Ele também chama atenção para a falta de medição oficial de parte dos percursos. Segundo Maia, há provas em que o trajeto registrado não corresponde ao percurso efetivamente realizado.

A federação afirma que pretende continuar buscando as secretarias e prefeituras para discutir a participação da entidade na organização dos eventos e reforçar a necessidade de medidas de segurança para os corredores.

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