Panorama

Mensagens de grupo do tráfico revelam rotina e organização de pontos de venda na Cidade de Deus

Ferro-velho de Breno Barbosa Diniz foi incendiado um mês após seu desaparecimento, na Cidade de Deus — Foto: Arquivo pessoal e Divulgação / LAMSA
Conversas mostram controle financeiro, hierarquia e monitoramento policial em favelas do Rio— Foto: Arquivo pessoal e Divulgação / LAMSA

Mais de 2.300 mensagens trocadas em um grupo de WhatsApp formado por integrantes do tráfico ligados ao Comando Vermelho revelam detalhes da rotina de funcionamento e da prestação de contas de pontos de venda de drogas na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio.

O material expõe como gerentes das chamadas “bocas de fumo” organizavam o controle das vendas, com relatórios feitos diariamente, geralmente pela manhã e à noite, durante as trocas de plantão. Entre os integrantes do grupo estava Breno Barbosa Diniz, de 24 anos, apontado como gerente de um dos pontos e que teria sido morto por integrantes da própria facção.

As conversas mostram um padrão rígido de prestação de contas, com detalhamento do tipo de droga, quantidade vendida, peso e valores arrecadados. Termos como “firma” eram usados para identificar os pontos de venda, enquanto clientes eram chamados de “fregueses”. Já o volume total comercializado no dia era descrito com a expressão “camisas choradas”.

De acordo com o conteúdo, havia pelo menos dez pontos ativos na comunidade, com nomes como Vento, Vasco, Mercadinho, Amendoeira e Fundão. Além da gestão financeira, os criminosos também trocavam informações sobre movimentações policiais e mantinham regras internas para organização dos horários de trabalho.

Em uma das mensagens, Breno orienta sobre os turnos de atuação dos traficantes, estabelecendo horários específicos para funcionamento das atividades. Em outra, há cobranças por falhas na contabilidade, com ameaças de punição.

O caso também envolve a morte do próprio Breno, que, segundo relatos, teria sido acusado de ser informante — conhecido no meio criminoso como “X9”. Após seu desaparecimento, o ferro-velho que ele mantinha na comunidade foi incendiado. Imagens mostram traficantes reunidos em um bar em um encontro que moradores associam à celebração da morte.

O corpo do jovem ainda é procurado. A Polícia Civil investiga o caso como homicídio e ocultação de cadáver. Moradores relatam clima de intimidação na região, com ameaças a quem comentar sobre o ocorrido.

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