Panorama

Desperdício na Baixada: Hospital de Campanha de R$ 50 milhões vira “cemitério” de veículos em Nova Iguaçu

Hospital de campanha de Nova Iguaçu, construído durante a pandemia de Covid-19, hoje tem parte da estrutura desativada — Foto: Reprodução/TV Globo
Hospital de campanha de Nova Iguaçu, construído durante a pandemia de Covid-19. — Foto: Reprodução/TV Globo

O que deveria ser um legado de saúde para a Baixada Fluminense transformou-se em um cenário de descaso. Localizado em Nova Iguaçu, o complexo que abrigou o Hospital de Campanha Ricardo Cruz durante o auge da pandemia de Covid-19 é hoje alvo de graves denúncias de moradores, que flagram ambulâncias e equipamentos hospitalares apodrecendo sob sol e chuva.

O cenário nos fundos do Hospital de Campanha Ricardo Cruz, em Nova Iguaçu, é um retrato do contraste entre o investimento público milionário e o abandono prático. Erguida ao custo de mais de R$ 50 milhões durante o momento mais crítico da pandemia, a estrutura que deveria servir como um legado de saúde para a Baixada Fluminense hoje abriga o que moradores chamam de “cemitério de ambulâncias”. Enquanto a parte frontal do complexo segue operando como um hospital modular para casos de alta complexidade e UTI, os fundos da unidade revelam pelo menos sete ambulâncias paradas, além de caminhões e reboques que antes transportavam tomógrafos móveis, todos agora entregues à ação do tempo e à insegurança da região.

A degradação é visível para quem passa pelo local: equipamentos médicos estão amontoados sob tendas improvisadas e os veículos, expostos ao sol e à chuva, tornaram-se alvos fáceis para criminosos que invadem o espaço em busca de peças e metais. Para quem depende da saúde pública, como o caminhoneiro Everaldo Reis, a situação é vista como uma “covardia” com o dinheiro do contribuinte. O sentimento geral é de que o patrimônio, batizado em homenagem ao médico Ricardo Cruz , vítima da própria Covid-19, está sendo desperdiçado diante de uma população que ainda enfrenta filas e carências no atendimento básico.

O que diz a Secretaria de saúde

Por outro lado, a Secretaria de Estado de Saúde tenta minimizar as críticas com justificativas técnicas. Segundo a pasta, cinco das ambulâncias vistas nas imagens não estariam exatamente “abandonadas”, mas sim em um processo burocrático de baixa patrimonial, por já terem atingido o fim de sua vida útil. O governo alega que a renovação da frota foi feita através do programa Samu 100%, que entregou 11 novos veículos para o município. Sobre o caminhão e o reboque do tomógrafo, o Estado garante que as estruturas estão em boas condições e prontas para receber novos aparelhos, embora não tenha detalhado prazos para que isso aconteça.

Quanto à estrutura física que sobrou da pandemia, a secretaria defende que o modelo modular é estratégico. A alegação oficial é de que essas unidades são acondicionadas em estruturas retráteis justamente para garantir sua preservação, podendo ser deslocadas para qualquer um dos 92 municípios do Rio de Janeiro conforme a demanda. No entanto, enquanto essa “estratégia” não sai do papel, o que se vê no cotidiano de Nova Iguaçu é um patrimônio que custou caro aos cofres públicos sofrendo um desgaste que dificilmente será revertido apenas com justificativas oficiais.

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