Panorama

Deu ruim para o André Ceciliano

A exoneração de 206 servidores comissionados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), publicada em edição extra do Diário Oficial na noite desta terça-feira (06), atingiu de forma significativa indicações atribuídas ao ex-presidente da Casa André Ceciliano, atual secretário de Assuntos Parlamentares da Secretaria de Relações Institucionais do Governo Federal.

Levantamento interno aponta que cerca de 50 cargos exonerados , aproximadamente 24% do total , estavam ligados a indicações de Ceciliano, o equivalente a um quarto de toda a lista. O dado confere peso político à decisão do presidente em exercício da Alerj, deputado Guilherme Delaroli (PL), e coloca Ceciliano no centro da maior reformulação administrativa do Legislativo fluminense em quase três décadas. Mais do que um ajuste técnico, a medida escancarou a rede de indicações políticas que atravessa sucessivas gestões da Casa e atingiu figuras ainda ativas no cenário político estadual e nacional.

Pressão imediata e possibilidade de recuo

A reação foi imediata. Desde a publicação das exonerações, Delaroli passou a sofrer intensa pressão de deputados, lideranças partidárias e assessores, em uma ofensiva de telefonemas e articulações para tentar reverter parte das demissões. Segundo interlocutores da presidência, já há avaliação concreta para que decretos tornando “sem efeito” algumas exonerações sejam publicados nos próximos dias. Pelo regimento interno, o presidente em exercício tem até 30 dias para decidir sobre eventuais revisões.

Apesar da possibilidade de recuo parcial, parlamentares avaliam que o impacto político da decisão já está consolidado.

Outros caciques também atingidos

Embora o volume de cargos atribuídos a André Ceciliano tenha concentrado as atenções, a varredura promovida pela presidência interina da Alerj alcançou outros grupos historicamente influentes no comando do Legislativo fluminense. Levantamento interno indica que 47 cargos estavam ligados ao ex-presidente da Casa Paulo Melo e 17 eram associados ao ex-governador Sérgio Cabral, incluindo familiares.

Entre os nomes exonerados estão Marco Antônio Neves Cabral e Suzana Neves Cabral, respectivamente filho e ex-esposa do ex-governador, o que reforçou a avaliação, nos bastidores, de que a decisão rompeu acordos informais de preservação de quadros tradicionais da Assembleia. A lista inclui ainda outros servidores vinculados a antigos grupos políticos que, ao longo de diferentes gestões, ocuparam posições estratégicas na estrutura administrativa da Casa.

Demonstração de força

Nos corredores do Palácio Tiradentes, deputados classificam a exoneração em massa como um recado político explícito. Desde a prisão e posterior afastamento do presidente eleito da Casa, Rodrigo Bacellar (União), por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, há cerca de um mês, Delaroli assumiu interinamente o comando da Alerj e passou a redesenhar sua estrutura administrativa.
Para aliados e adversários, a decisão serviu como demonstração inequívoca de poder.

Isolamento de Bacellar

Interlocutores próximos a Bacellar afirmam que o deputado não ficou satisfeito com a amplitude das exonerações nem com as mudanças administrativas promovidas por Delaroli. Avaliam, ainda, que a medida atingiu aliados históricos do presidente afastado, entre eles Sérgio Cabral, ampliando seu isolamento político dentro da Casa.

A leitura predominante é de que o movimento enfraquece o campo de sustentação de Bacellar e reposiciona forças para um possível desfecho definitivo da disputa pelo comando do Legislativo.

Avanço do PL

Paralelamente às exonerações, Delaroli promoveu uma reconfiguração estratégica da máquina administrativa, nomeando aliados com vínculos diretos com Itaboraí, município governado por seu irmão, Marcelo Delaroli, principal reduto político da família.
Nesta semana, foi nomeado para a Subdiretoria de Assuntos Legislativos Guilherme Ferreira Delphim Pereira, ex-secretário municipal de Ciência e Inovação de Itaboraí. Em dezembro, Delaroli já havia substituído o diretor-geral da Casa e o chefe de gabinete da presidência por nomes ligados ao mesmo grupo político.

Disputa no horizonte

Nos bastidores, cresce a avaliação de que as exonerações também funcionam como instrumento de pressão para uma eventual renúncia de Bacellar. A saída voluntária abriria caminho para uma nova eleição à presidência da Alerj, que, pelo regimento, deve ocorrer em até cinco sessões.

Aliados avaliam que Delaroli ganhou musculatura política suficiente para se viabilizar não apenas para concluir o mandato atual, mas também para disputar o comando da Casa na próxima legislatura, a partir de 2027. Enquanto isso, a crise permanece aberta. Informações de bastidores indicam que cerca de mil cargos ainda estão sob análise, mantendo em alerta antigos e novos caciques do Legislativo fluminense.
Pela primeira vez em muitos anos, nomes antes considerados intocáveis passaram a figurar no Diário Oficial , não como nomeações, mas como exonerações.

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