Levantamento indica profissionalização das facções, com cargos que vão de gerentes de logística a operadores de drones e responsáveis por extorsões

As facções do tráfico de drogas no Rio de Janeiro passaram a operar com uma estrutura semelhante à de grandes corporações, com divisão de tarefas, especialização de mão de obra e setores internos bem definidos. Um levantamento realizado pelo jornal O GLOBO, com base em dados da Delegacia de Repressão aos Entorpecentes (DRE), do Ministério Público do Rio (MPRJ) e entrevistas com ex-traficantes intermediadas pela Central Única das Favelas (Cufa), identificou ao menos 25 funções distintas que integram atualmente a engrenagem do crime organizado no estado.
Segundo a DRE, pelo menos 20 desses cargos foram mapeados ao longo de grandes operações realizadas em 2024 e 2025, além de investigações financeiras que permitiram identificar a cadeia de comando das facções. Para o delegado titular da especializada, Moysés Santana, o tráfico hoje funciona como “uma empresa de grande porte”, com estrutura altamente segmentada e profissionalizada.
Além das funções tradicionais, como chefe da comunidade, gerentes, soldados, vapores e olheiros, o avanço tecnológico e o fortalecimento financeiro das facções deram origem a novos cargos. Entre eles estão gerentes de logística, responsáveis por barricadas, operadores de drones, setores de contrainteligência aérea e até gestores de eventos e bailes funk.
De acordo com o coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ (Gaesp), promotor Fabio Corrêa, essa transformação se intensificou no período pós-pandemia, quando facções como o Comando Vermelho passaram a priorizar o controle territorial em vez da simples venda de drogas. O domínio de ruas, serviços, comércio local e eventos passou a ser mais estratégico e rentável.
Nesse contexto, surgiram funções como a de “mentor de barricadas”, responsável por planejar e manter obstáculos para dificultar o avanço policial. Em novembro do ano passado, a Polícia Civil prendeu um suspeito apontado como responsável por essa atividade em áreas dominadas pelo Comando Vermelho.
O monitoramento tecnológico também ganhou destaque. Investigações revelam a atuação de gerentes e operadores de drones, além de núcleos de contrainteligência responsáveis por detectar e até capturar equipamentos das forças de segurança. Denúncias do Ministério Público apontam que drones e câmeras são usados de forma sistemática para vigiar o território e a movimentação policial.
Outro setor em expansão é o de eventos. Segundo a Polícia Civil, há indícios da existência de gerentes de bailes e festas comunitárias, utilizados tanto para reforçar o controle social quanto para lavar dinheiro de origem ilícita. O Ministério Público ressalta que manifestações culturais foram apropriadas pelas facções como forma de gerar pertencimento e facilitar a cooptação de jovens.
A extorsão também passou a ser organizada de maneira sistemática. Há registros da atuação de “gerentes de bairros” ou “gerentes de área”, responsáveis por impor cobranças a comerciantes, controlar a arrecadação e repassar valores à cúpula das facções. Em algumas regiões, há ainda setores dedicados ao controle de roubos de veículos e cargas.
Segundo a Polícia Civil, a modernização do tráfico responde tanto à necessidade de proteção contra ações do Estado quanto às disputas internas entre facções rivais. Em grandes complexos de comunidades, como Penha e Alemão, a tendência é de ampliação ainda maior dessa estrutura, com setores específicos voltados à logística, finanças, defesa, comunicação e inteligência criminosa.


