Panorama

PF aponta relação próxima entre desembargador do TRF2 e Rodrigo Bacellar

Investigação cita troca de mensagens sobre ingressos do Maracanã e apura vazamento de informações sigilosas

Desembargador Macário Júdice e o deputado estadual Rodrigo Bacellar
Foto: Reprodução e Lucas Tavares

A Polícia Federal apontou a existência de uma relação de “estreita amizade” entre o desembargador Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), e o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil), presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Como um dos indícios, a PF cita uma conversa interceptada em que o magistrado pede ingressos para o jogo entre Flamengo e Ceará, realizado em novembro, pelo Campeonato Brasileiro.

Macário Júdice Neto foi preso nesta terça-feira, em sua casa, na Barra da Tijuca, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Dias após o pedido de ingressos e na véspera da prisão, Bacellar declarou que pretendia instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a distribuição de ingressos e promover uma “faxina sobre os ingressos do Maracanã”.

O desembargador e o deputado são investigados pela PF por suposto vazamento de informações sigilosas relacionadas a uma investigação contra o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos, conhecido como TH Jóias. Ele está preso sob suspeita de usar o mandato para favorecer o Comando Vermelho e foi transferido para uma penitenciária federal. Por ordem de Moraes, Júdice Neto foi detido preventivamente; ele era o relator do inquérito de TH Jóias no TRF2 antes de o caso ser remetido ao STF.

Na conversa entre Bacellar e Júdice, ocorrida dias antes da partida entre Flamengo e Ceará, o desembargador afirma que os ingressos seriam destinados ao irmão e ao sobrinho, descritos como “flamenguistas doentes”. Bacellar responde que “vai dar um jeito” e pede para que o magistrado fique “despreocupado”. Em outra mensagem, diz que aguardaria a confirmação da carga de ingressos pela Suderj (Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro) e acrescenta que não iria ao jogo, pois prefere assistir de casa.

Conforme as mensagens interceptadas, Bacellar afirmou que faria o possível para atender ao pedido. “Nem que eu arrebente o portão darei um jeito. Tenho juízo, meu padrinho”, escreveu.

O pedido de CPI

Na abertura da sessão do dia 2 de dezembro, véspera de sua prisão, Bacellar fez um discurso sobre a venda de ingressos e defendeu a criação de uma CPI para apurar a distribuição das entradas no Maracanã. Ele disse que pretendia convocar o presidente da Suderj e afirmou que o governo estadual receberia cerca de 2 mil ingressos por jogo, além de relatar denúncias de cambistas vendendo entradas por até R$ 1 mil.

“Trazer aqui para começar a falar o presidente da Suderj para a gente saber de que forma são distribuídos esses ingressos. Também trazer o Procon, trazer todos os órgãos de fiscalização junto com a Assembleia Legislativa para a gente dar uma faxina nessa questão dos ingressos do Maracanã”, disse Bacellar.

A operação

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira a segunda fase da Operação Unha e Carne, que apura o vazamento de informações sigilosas da Operação Zargun para integrantes do Comando Vermelho. Um dos principais alvos desta etapa é o deputado estadual licenciado Rodrigo Bacellar, que voltou a ser alvo de mandados de busca. Diligências também foram realizadas no Espírito Santo.

Segundo a PF, o desembargador teria se encontrado com Bacellar em uma churrascaria, na véspera da operação que resultou na prisão de TH Jóias, em setembro. No encontro, Júdice Neto teria repassado informações sigilosas, que teriam sido comunicadas ao ex-deputado, de acordo com os investigadores.

Em nota, o advogado Fernando Augusto Fernandes, que representa o desembargador, afirmou que Alexandre de Moraes “foi induzido a erro ao determinar a medida extrema” e disse que a defesa apresentará esclarecimentos e pedirá a imediata soltura do magistrado. A defesa também negou que o encontro tenha ocorrido. “Se o deputado afirmou que estava com o desembargador Macário Júdice, a afirmação é mentirosa, e as câmeras de gravação do restaurante devem demonstrar”, afirmou.

Já a defesa de Rodrigo Bacellar informou que o deputado sempre se colocou à disposição para prestar esclarecimentos, que tem cumprido todas as medidas determinadas e reiterou que o parlamentar não atuou para inibir ou embaraçar qualquer investigação.

Compartilhar :

Facebook
Twitter