Panorama

Quase 20% dos moradores de favelas vivem em ruas onde carros não conseguem chegar

Levantamento do IBGE revela limites de acesso a serviços básicos em comunidades brasileiras

Rio de Janeiro (RJ) 26/03/2024 – Grades de proteção na encosta do Morro do Andaraí, atendido pelo programa Favela Bairro, que completa 30 anos. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Quase um quinto dos moradores de favelas no Brasil vive em áreas onde nenhum carro consegue entrar. De acordo com dados do Censo 2022, divulgados nesta sexta-feira (5) pelo IBGE, 3,1 milhões de pessoas residem em vias tão estreitas que só permitem a circulação de motos, bicicletas ou pedestres. Fora das comunidades, essa situação é rara: atinge apenas 1,4% da população.

O material faz parte do suplemento Favelas e comunidades urbanas: características urbanísticas do entorno dos domicílios e expõe desigualdades históricas na infraestrutura urbana do país. O Brasil registrava, em 2022, 16,4 milhões de habitantes vivendo em 12.348 favelas, distribuídos em 6,56 milhões de domicílios.

Para quem vive em ruas onde carros não passam, serviços como coleta de lixo, atendimento médico de emergência e transporte de cargas simplesmente não chegam.
O IBGE aponta que apenas 62% dos moradores de favelas vivem em vias com capacidade para ônibus, caminhões ou veículos maiores — número bem distante dos 93,4% das áreas formais.

“Isso afeta diretamente o acesso a serviços públicos essenciais. Muitas vezes, um caminhão de lixo ou uma ambulância não consegue chegar”, explica o pesquisador Filipe Borsani, do IBGE em entrevista para Agência Brasil.

Outro indicador que revela o contraste entre favelas e o restante da cidade é a presença de calçadas.

  • Fora das comunidades: 89,3% dos moradores têm calçada na rua.
    Nas favelas: a proporção cai para 53,9%.
  • O cenário muda conforme o tamanho da comunidade: em favelas pequenas, o acesso a calçadas fica próximo dos 50%; nas maiores, chega a 61,4%.
    Mas algumas realidades são ainda mais críticas. Na Rocinha, maior favela do país, somente 12,1% dos moradores vivem em ruas com calçadas.

Quando se trata de calçadas sem obstáculos, os números despencam:

  • Fora das favelas: 22,3%
    Nas favelas: apenas 3,8%
    Na Rocinha, quase zeram: 0,1%.

Rampas para cadeirantes também são escassas. Apenas 2,4% dos moradores de favelas contam com esse equipamento no entorno da casa, contra 18,5% nas áreas formais.

A pesquisa mostra que 78,3% das pessoas que vivem em favelas têm vias pavimentadas ao redor do domicílio. Em áreas formais, o índice sobe para 91,8%.

Quanto maior a favela, maior tende a ser a presença de pavimentação. Em comunidades pequenas, o percentual é de 65,8%; nas mais populosas, chega a 86,7%.

A Bahia aparece como exceção nacional: é o único estado em que as favelas têm mais pavimentação (92,1%) do que as áreas não classificadas como favelas (89,7%). Segundo o IBGE, a diferença pode estar relacionada a trechos pavimentados pela própria população.

Para o IBGE, os números reforçam uma “exclusão histórica” na oferta de serviços públicos.

“É possível ver claramente que há uma distribuição desigual de equipamentos urbanos”, afirma Borsani.

A gerente de Favelas e Comunidades Urbanas do instituto, Leticia Giannella, destaca que os dados podem fortalecer mobilizações sociais:

“Que esses números ajudem as comunidades a reivindicar melhorias reais junto ao poder público”.

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