Partido de Cláudio Castro estuda nome do chefe da Polícia Civil, que ganhou projeção com o discurso de combate à “narcocultura” e ações de confronto; coronel Menezes também é opção

O Partido Liberal (PL), liderado no estado pelo governador Cláudio Castro, encomendou uma pesquisa eleitoral para testar o nome do secretário da Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, como possível candidato ao governo do estado nas próximas eleições. O movimento ocorre após Curi ganhar destaque nacional ao comandar a operação mais letal da história do Rio de Janeiro, nos complexos da Penha e Alemão.
A ação policial, que provocou mais de uma centena de mortes e reacendeu o debate sobre o uso da força e os limites das operações de segurança pública, consolidou a imagem de Curi entre eleitores de direita, que o veem como um símbolo do endurecimento no combate ao crime, e setores da esquerda, que o criticam por adotar o que classificam como uma “política da morte”.
Com um discurso que mistura segurança pública, tecnologia e retórica digital, o secretário vem se projetando nas redes sociais com falas sobre o enfrentamento à “narcocultura”, a criminalização das facções como “organizações terroristas” e a defesa de uma ação policial mais agressiva.
Segundo interlocutores do partido, o comandante da PM, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, também é considerado como alternativa eleitoral. Ambos participaram da operação recente que colocou o tema da segurança pública no centro do debate político fluminense.
O governador Cláudio Castro tem plena consciência do apelo popular dessas ações. Reeleito em 2022, Castro foi impulsionado por uma agenda de “tolerância zero” com o crime, em um discurso que ecoa o de figuras da direita nacional. Em junho daquele ano, durante a campanha, uma operação com 23 mortos gerou forte repercussão negativa, mas também consolidou sua imagem junto ao eleitorado mais conservador.
Na época, Castro afirmou que “se fosse seguir as pesquisas, faria mais três operações como a da Vila Cruzeiro, uma por semana”. A frase resume uma estratégia política que combina popularidade em meio à controvérsia e o uso do tema da segurança pública como ativo eleitoral.
“Necropolítica” e apelo popular
Especialistas chamam de necropolítica a prática de empilhar corpos em confrontos como suposta resposta à violência, conceito que, apesar de criticado por organizações de direitos humanos, gera apoio popular. Pesquisa Quaest citada no debate indica que 8 em cada 10 brasileiros acreditam que “a polícia prende e a Justiça solta”, o que reforça a percepção de que a morte de criminosos seria a única solução eficaz.
Contexto político
Nos bastidores, lideranças de diferentes partidos avaliam que a operação foi deflagrada estrategicamente em um momento de tensão política. O episódio coincidiu com declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disse que “traficantes também são vítimas dos usuários”, e do senador Flávio Bolsonaro, que sugeriu que os EUA bombardeassem a Baía de Guanabara.
“Cláudio foi dormir mais forte do que acordou”, resumiu o deputado Altineu Cortês (PL), em referência ao impacto político da operação.
Já o vice-presidente do PT e prefeito de Maricá, Washington Quaquá, rompeu com o discurso tradicional de seu partido e defendeu publicamente a postura de enfrentamento:
“A operação foi mal planejada, mas terá apoio da população, porque ninguém aguenta mais bandido”, afirmou.
O endurecimento do discurso reforça que, no Rio, a segurança pública permanece como principal motor político — um campo onde Cláudio Castro e agora Felipe Curi buscam transformar popularidade em capital eleitoral.



