Mensagens obtidas após quebra de sigilo de Washington “Grandão”, o “síndico da Penha”, mostram pedido para localizar veículo do “01”; apuração também indica pagamento de “arrego” a policiais e detalha hierarquia do tráfico

A partir da quebra do sigilo telefônico de Washington César Braga da Silva, o Grandão, a polícia obteve mensagens em que o major da PM Ulisses Estevam pede ajuda a um traficante para recuperar um carro roubado. Segundo relatório da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), que embasou a megaoperação que deixou 121 mortos, o oficial enviou a foto do veículo e escreveu: “Preciso recuperar. Carro do 01. Esse eu tenho que resolver”, informando estar no Morro da Fé, na Penha.
De acordo com as investigações, após o pedido do major, Grandão acionou administradores do grupo “CPX da Penha” para localizar o automóvel. O carro havia sido roubado em 26 de abril do ano passado e foi recuperado três dias depois, em 29 de abril.
O major Ulisses Estevam segue na ativa na Polícia Militar. Um documento interno, obtido pelo EXTRA, indica que, no início de outubro, ele estava alocado como gestor estratégico na 5ª UPP/23º BPM, responsável pela área da Rocinha. O contracheque do último mês somou R$ 26.667,24. A PM ainda não se manifestou sobre o caso.
O mesmo inquérito descreve a estrutura do tráfico no Complexo da Penha. No topo, estariam Edgard Alves de Andrade, o Doca ou Urso, e Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala, apontados como chefes da facção na região. Em um segundo nível figuram Carlos Costa Neves, o Gadernal, e Washington César Braga da Silva, o Grandão ou “Síndico da Penha”, identificados como gerentes gerais das comunidades. Um terceiro escalão reuniria gerentes de pontos de venda e responsáveis por áreas subordinadas a Doca. Segundo a polícia, grupos de WhatsApp eram usados para coordenar a rotina criminosa.
A DRE também atribui a Grandão a função de negociar com policiais militares das UPPs o pagamento do chamado “arrego”, com o objetivo de reduzir fiscalização e repressão ao tráfico. Ele teria coordenado escalas de “soldados” do crime e administrado eventos na Penha, como bailes funk. Os investigadores afirmam que havia um telefone exclusivo para contato com PMs envolvidos na coleta de propina.
A apuração reuniu fotos de anotações que indicam a contabilidade do tráfico. Em uma delas, obtida a partir da quebra de sigilo telefônico de um gerente do Alemão, há uma lista de gastos de R$ 39 mil, na qual o item “arrego” aparece em segundo lugar, com R$ 4,5 mil.
As mensagens e documentos citados integram o relatório que fundamentou a megaoperação realizada na última terça-feira nos Complexos da Penha e do Alemão, que resultou em 121 mortos, e seguem sob análise das autoridades.



