Ação com 2,5 mil agentes mira cúpula do Comando Vermelho; criminosos lançam granadas por drones e governo do estado cobra apoio federal em cenário de “guerra”

Uma megaoperação das polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, nesta terça-feira (28) deixou dois policiais civis mortos e ao menos outros oito agentes feridos na manhã desta terça-feira. De acordo com a Polícia Civil, mais de 100 suspeitos foram mortos, dois deles da Bahia, e quatro moradores foram atingidos. A ação, que mobiliza 2,5 mil policiais e promotores do Gaeco/MPRJ, mira o cumprimento de mandados contra integrantes do Comando Vermelho e já prendeu 81 pessoas, com apreensão de 31 fuzis.
A ofensiva tem como objetivo capturar chefes do tráfico do Rio e de outros estados e interromper o projeto de expansão territorial do Comando Vermelho (CV) em bases identificadas nas duas regiões. Segundo o Gaeco, são cumpridos 51 mandados de prisão, dentro de um inquérito que denunciou 67 pessoas por associação para o tráfico, três delas também por tortura. A operação ocorre após mais de um ano de investigações.
O dia registrou uma mudança no padrão de confronto nas favelas. Em uma demonstração inédita de poder de fogo, traficantes usaram drones para lançar granadas contra equipes da Core e do Bope, cenário de “bombardeio” típico de guerra. Em outro sinal de escalada, o governo do estado afirmou não ter condições de atuar sozinho e cobrou apoio federal.
“Essa operação de hoje tem muito pouco a ver com Segurança Pública. É uma operação de Estado de Defesa. É uma guerra que está passando os limites de onde o Estado deveria estar sozinho defendendo. Para uma guerra dessa, que nada tem a ver com a segurança urbana, deveríamos ter um apoio maior e até das Forças Armadas. É uma luta que já extrapolou toda a ideia de Segurança Pública e que está na Constituição. O Rio está sozinho nessa guerra”, disse o governador Cláudio Castro.
Segundo Castro, pedidos de apoio com blindados da Marinha e do Exército foram negados três vezes. Ele também alertou para a possibilidade de forte retaliação dos criminosos diante do número de mortos e das apreensões.
Até o fim da manhã, o balanço da operação apontava 81 presos e 31 fuzis apreendidos. Entre os detidos estão o operador financeiro de Edgard Alves de Andrade, o Doca, apontado como um dos principais chefes do CV na Penha, e Thiago do Nascimento Mendes, o Belão do Quitungo, considerado um de seus braços armados. A denúncia do MPRJ indica Doca como principal liderança do CV no Complexo da Penha e em comunidades como Gardênia Azul e César Maia, na Zona Sudoeste, e Juramento, na Zona Norte, algumas recentemente tomadas da milícia. Também exercem liderança, segundo o Ministério Público, Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala; Carlos Costa Neves, o Gadernal; e Washington Cesar Braga da Silva, o Grandão.
Moradores relataram intensos tiroteios nas redes sociais. Barricadas foram incendiadas, e colunas de fumaça podiam ser vistas à distância. Ônibus foram usados como barreiras e linhas de transporte precisaram ser desviadas. Unidades de saúde e escolas suspenderam o funcionamento.
Mortos e feridos: o que se sabe
- Policiais civis mortos: Marcos Vinicius Cardoso Carvalho, da 53ª DP (Mesquita), conhecido como Máskara, que morreu no Hospital estadual Getúlio Vargas; e um policial da 39ª DP (Pavuna), que morreu momentos após chegar à mesma unidade.
- Agentes feridos: três policiais civis (38ª DP, 26ª DP e DRE) e cinco policiais militares. Um cabo do Bope foi atingido de raspão numa área de mata conhecida como Vacaria e levado ao Hospital Central da PM.
- Moradores feridos: um morador em situação de rua não identificado; e outros três moradores — Fernando Vinícius Lopes, Kelma Rejane Magalhães e Daniel Mello dos Santos. Kelma foi atingida na região dos glúteos enquanto estava em uma academia. Todos têm estado de saúde estável.
- Suspeitos mortos: 20, segundo a Polícia Civil, incluindo dois homens apontados como traficantes vindos da Bahia.
- Impactos urbanos: incêndio em barricadas, uso de ônibus como barreiras, desvios de linhas e suspensão de serviços de saúde e educação.


