Enquanto a deputada aposta em sua trajetória histórica no partido, a ala ligada a Washington Quaquá prepara ato de filiação do sambista, visto como nome popular capaz de “furar a bolha da esquerda”.

Dividido sobre quem lançar ao Senado nas eleições de 2026, o PT do Rio de Janeiro prepara o ato de filiação de Neguinho da Beija-Flor, nome defendido pela ala majoritária da sigla no estado. Enquanto isso, outro grupo petista se mobiliza em torno da deputada federal Benedita da Silva, que pretende disputar seu último pleito e já iniciou articulações pelo interior.
A filiação de Neguinho, idealizada pelo prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, deve ser oficializada nas próximas semanas. O evento será articulado pelo filho de Quaquá, Diego Zeidan, presidente do diretório fluminense. O sambista, que se aposentou da Marquês de Sapucaí no último Carnaval, ainda está filiado ao PL, partido ao qual aderiu em 2013, antes de a legenda se tornar a principal sigla do bolsonarismo.
O PT pretende promover também um encontro entre Neguinho e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas a agenda ainda não foi confirmada, já que o cantor está em Portugal acompanhando Quaquá, que cumpre compromissos internacionais. A sigla iniciou pesquisas internas e, segundo dirigentes, os primeiros resultados foram positivos.
“Neguinho é um cara extremamente popular, que fura a bolha da esquerda e dialoga diretamente com o povo. Para derrotar o bolsonarismo no estado, precisamos de candidatos amplos. Não podemos repetir o erro de 2022, quando a esquerda ficou restrita a apenas 30% do eleitorado”, afirmou Diego Zeidan.
Antes de sugerir o nome do sambista, Quaquá havia posado ao lado de Alessandro Molon (PSB) e demonstrado apoio à sua candidatura. Agora, a ala de Maricá sustenta que Neguinho e Molon poderiam concorrer simultaneamente, comparando o potencial eleitoral do cantor ao de Romário, que em 2022 venceu mesmo diante da fragmentação do campo progressista.
Em nota, a corrente Construindo um Novo Brasil na Favela (CNB Favela) — majoritária no diretório estadual e liderada por Zeidan — reforçou o apoio a Neguinho:
“Precisamos de candidatos que dialoguem para fora das universidades, da classe média e da Zona Sul. Neguinho é um quadro popular, reconhecido por todos, com potencial para atrair apoio de outros campos políticos.”
O grupo também reiterou o apoio à candidatura de Eduardo Paes (PSD) ao governo do estado.
Enquanto isso, Benedita da Silva conta com o respaldo de figuras de peso dentro do partido, como Marcelo Freixo (presidente da Embratur), Anielle Franco (ministra da Igualdade Racial), Lindbergh Farias (líder do PT na Câmara) e Tainá de Paula (secretária de Meio Ambiente e Clima da Prefeitura do Rio). A deputada já iniciou uma série de visitas a municípios fluminenses, incluindo Duque de Caxias e Petrópolis, para reunir apoios locais.
Durante um evento em agosto, o presidente Lula fez uma declaração que foi interpretada como um endosso à candidatura de Benedita:
“Eu não sei o que vai acontecer com a Benedita, não sei o que ela quer ser, mas uma coisa eu vou dizer: se essa ‘negona’ for senadora, é a mais bonita senadora deste país, a mais forte representação negra deste país.”
Entre aliados da deputada, há quem veja a movimentação de Quaquá como uma tentativa de enfraquecer Benedita, lançando balões de ensaio dentro do partido. Caso o impasse persista, o nome petista ao Senado será decidido por votação da executiva estadual.
Em 2022, a esquerda fluminense se dividiu entre Molon (PSB) e André Ceciliano (PT), o que favoreceu a reeleição de Romário (PL). Somados, os votos de Molon e Ceciliano teriam superado os do ex-jogador, e a disputa interna é vista agora como um alerta para evitar nova fragmentação em 2026.



