Panorama

Polícia Civil e MPRJ desmontam esquema de exploração da fé em Niterói

Operação Blasfêmia investiga quadrilha liderada por pastor que movimentou mais de R$ 3,3 milhões em dois anos

Foto: TV Globo/Reprodução

A Polícia Civil do Rio e o Ministério Público estadual (MPRJ) deflagraram, nesta quarta-feira, a Operação Blasfêmia contra uma quadrilha que explorava financeiramente fiéis prometendo curas e milagres. O grupo atuava em um call center no Centro de Niterói e é acusado de movimentar mais de R$ 3,3 milhões em dois anos.

Entre os denunciados está o pastor Luiz Henrique dos Santos Ferreira, conhecido como profeta Henrique Santini, que acumula mais de oito milhões de seguidores nas redes sociais. Ele deverá usar tornozeleira eletrônica. Segundo as investigações, Santini divulgava diariamente promessas de bênçãos ligadas à vida financeira e afetiva e orientava os seguidores a entrar em contato por telefone.

De acordo com o MPRJ, as vítimas acreditavam falar diretamente com Santini, mas eram atendidas por funcionários que se passavam por ele, usando áudios previamente gravados com pedidos de contribuições em dinheiro. Os valores cobrados variavam de R$ 20 a R$ 1,5 mil, em transferências via Pix. Ao menos sete adolescentes teriam sido aliciados para participar do esquema.

O delegado Luiz Henrique Marques Pereira, titular da 76ª DP (Centro de Niterói), destacou que a prática ultrapassa os limites da liberdade religiosa:

“A atuação de líderes religiosos na arrecadação de dízimos e ofertas é permitida dentro do princípio da liberdade religiosa, garantida pela Constituição. No entanto, quando essa arrecadação ocorre por meio de fraude, é considerada conduta criminosa.”

As investigações apontam que os atendentes recebiam comissões de acordo com a arrecadação e eram submetidos a rígidas metas de desempenho. Aqueles que não alcançavam o mínimo exigido eram dispensados.

“O que realmente motivava o grupo criminoso não era o atendimento religioso, e sim a exploração financeira da fé, sem nenhum escrúpulo, afirmou o delegado.”

A operação resultou na apreensão de 52 celulares, seis notebooks e 149 chips de telefonia. A polícia afirma que milhares de vítimas foram identificadas em todo o Brasil.

Santini negou as acusações e disse ser alvo de perseguição:

“Sou surpreendido com um mandado de busca e apreensão e até agora não encontraram nada que pudesse me incriminar. Eu entendo isso como uma perseguição religiosa.”

Mensagens obtidas pela investigação mostram a pressão sobre os fiéis. Em um dos áudios, um atendente dizia: “Deus mandou eu vir falar com você. Você vai fazer um sacrifício no altar de 24 reais, representando as 24 horas que eu vou ficar no monte.”
Outro áudio revela a vulnerabilidade das vítimas. Uma fiel declarou: “Não tenho nada na minha casa a não ser água e sal. Mas se Deus me abençoar, daqui para mais tarde eu faço um Pix.”

As apurações seguem em andamento para localizar novas vítimas e outros envolvidos na organização criminosa.

Por Gabriel Caetano

Foto: TV Globo/Reprodução

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