Ação teve 47 presos e mais de 800 animais resgatados. Mais de mil policiais civis foram para as ruas

Quarenta e sete pessoas foram presas e mais de 800 animais resgatados nesta terça-feira durante a Operação São Francisco, considerada pela Polícia Civil a maior já realizada no país contra o tráfico de animais silvestres. A ação mobilizou mais de mil agentes e foi coordenada pela Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), após um ano de investigações que revelaram a principal organização criminosa do Rio de Janeiro especializada nesse tipo de delito e suas conexões interestaduais. Uma policial foi baleada durante a operação.
Entre os investigados está o deputado estadual TH Joias, já preso há duas semanas. Segundo o colunista Lauro Jardim, ele teria mantido relações diretas com traficantes de fauna e, em pelo menos quatro ocasiões, negociado a compra de primatas brasileiros, além de apresentar novos compradores ao esquema. De acordo com a polícia, os animais chegaram a ser oferecidos como presente a criminosos. Em áudios interceptados, um traficante chega a destacar a proximidade com o parlamentar, dizendo que ele não só adquiria animais, mas também ajudava a expandir a rede de compradores.
Foram expedidos mais de 40 mandados de prisão e 270 de busca e apreensão em diferentes regiões do estado — capital, Região Metropolitana, Baixada Fluminense, Região Serrana e Região dos Lagos —, além de ações em São Paulo e Minas Gerais.
Ligações com facções criminosas
O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, afirmou:
“A organização criminosa desarticulada nesta operação não atuava apenas no tráfico de animais. Era um grupo com diversos núcleos, incluindo tráfico de animais, tráfico de armas e de munições, com a participação de pessoas diretamente ligadas à facção criminosa Comando Vermelho. Era um esquema complexo, que movimentava muito dinheiro: milhões de reais em todo o país, principalmente no estado do Rio de Janeiro.”
Segundo as investigações, o grupo atuava havia décadas, sendo o principal responsável por abastecer feiras clandestinas com animais silvestres. A estrutura era dividida em núcleos: caçadores, atravessadores, falsificadores, vendedores de armas e até um especializado em primatas. Muitos espécimes eram retirados de áreas de preservação, como o Parque Nacional da Tijuca e o Horto.
Outro braço da quadrilha falsificava anilhas, chips e documentos para mascarar a origem dos animais. Também havia a atuação de transportadores e de consumidores finais, que alimentavam a cadeia criminosa.
O delegado André Prates Fraga, da DPMA, explicou:
“É importante que a população tenha consciência de jamais comprar qualquer animal silvestre em feiras, porque é isso que alimenta toda a cadeia criminosa: o tráfico de animais, os maus-tratos e muita crueldade. A grande maioria desses animais morre no trajeto.”
Já o delegado André Neves, do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), ressaltou a gravidade das conexões:
“Para se ter noção da nocividade dessa organização criminosa, um dos alvos é acusado de assassinar três PMs. Na investigação, tivemos acesso a conversas em que ele se vangloriava disso.”
E completou:
“Se não fosse dado um basta, haveria a extinção completa de algumas espécies.”
Confronto armado
Durante o cumprimento de mandados na comunidade Vai Quem Quer, em Duque de Caxias, houve confronto. A polícia identificou três criminosos que planejavam um assalto.
“Eles estavam a caminho de praticar um grande roubo, provavelmente a caixa eletrônico. Estavam com um cinturão de artefatos explosivos de alta letalidade. Portavam também fuzis, coletes e granadas. Agimos e conseguimos prendê-los, mas eles atiraram contra os policiais, e um suspeito foi baleado” relatou o delegado André Prates Fraga.
O ferido foi levado ao Hospital Adão Pereira Nunes.
“Corredor da morte”
O secretário de Ambiente e Sustentabilidade, Bernardo Rossi, destacou:
“Infelizmente, há mercado para isso. No tráfico internacional, um casal de micos-leões pode custar até US$ 250 mil. É uma crueldade muito grande. Desde o transporte, feito em plástico preto, caixas de relógio, canos, até mesmo aves que chegaram aqui já mortas, deitadas na própria gaiola, sem ninguém verificar. É um grau de crueldade contra a biodiversidade sem precedentes. O sistema funcionava como um “corredor da morte”. Porque pela forma como eram feitas a retirada e o transporte, cerca de 60% dos animais chegavam sem vida ao destino.”
Ele afirmou ainda que a investigação comprovou vínculos entre os criminosos e o tráfico de drogas e armas. Uma das pessoas investigadas teria comercializado cerca de 45 mil animais.
“Na investigação vimos primatas e onças sendo comercializados com o tráfico de drogas” disse.
O presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Fernando Jordão, complementou:
“O governo do estado é implacável na fiscalização em relação ao meio ambiente. Claro que sempre precisa melhorar, mas o problema é a conscientização das pessoas que compram esses animais, que transportam, que vendem, que vão às feiras. Isso é o que precisa mudar.”
Atendimento aos animais
Na Cidade da Polícia, foi montada uma base de apoio para receber os animais resgatados. Eles passaram por atendimento veterinário voluntário, perícia criminal e, em seguida, foram encaminhados a centros de triagem para posterior reintrodução na natureza.
Em nota, o governador Cláudio Castro declarou:
“Hoje o Rio d
e Janeiro mostra, mais uma vez, que não vai recuar diante do crime organizado. Estamos falando de uma quadrilha que, além de destruir a nossa fauna e ameaçar a biodiversidade, também alimentava a violência com a venda de armamento pesado”.



