Panorama

Deputados vão a presídios interrogar os maiores ladrões de carro do Rio

CPI das câmeras investiga elo de quadrilhas com empresas de proteção veicular e seguradoras; presos têm histórico de crimes violentos, fugas espetaculares e esquemas milionários

Foto: Alex Ramos

Deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) visitaram, na manhã desta segunda-feira, unidades prisionais do Complexo de Gericinó para interrogar, frente a frente, alguns dos criminosos mais temidos do Rio de Janeiro. A missão integra a CPI das Câmeras, criada pelos parlamentares para investigar empresas de videomonitoramento, seguradoras e associações de proteção veicular que, segundo levantamento da Alerj, podem lucrar com a escalada dos roubos de veículos.

A visita, que reúne os parlamentares Alexandre Knoploch (PL), presidente da CPI, Filippe Poubel (PL), Alan Lopes (PL), Rodrigo Amorim (PTB) e Marcelo Dino (União) e está prevista para acabar no início da tarde, tem como alvo detentos apontados pela Polícia Civil como chefes de quadrilhas especializadas em roubo e clonagem de carros. Estão no topo do crime de roubo e clonagem de carros em todo o estado: Vinicius Sebastian dos Santos Catrinck, o Capetão; Thiago Fernandes Virtuoso, o Tio Comel; Gildásio Esteves Lima; Luciano da Silva Teixeira, o Sardinha da CDD; e Jefferson Dias Lino, o Rouba Cena. O objetivo da comissão é mapear o fluxo de dinheiro que sai do crime e, muitas vezes, retorna a empresas que prometem proteção ou recuperação dos automóveis roubados.

As entrevistas com os criminosos serão gravadas, e o material produzido deve ser submetido ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) ainda no âmbito da CPI. Segundo os deputados, o registro audiovisual permitirá que promotores e investigadores analisem as declarações dos detentos para verificar se há ligação entre quadrilhas especializadas em roubo e clonagem de veículos e empresas de proteção veicular e seguradoras.

Situação de cada preso

De acordo com a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), quatro dos citados estão sob custódia ou com paradeiro conhecido: Vinicius Sebastian dos Santos Catrinck, vulgo Capetão, está recolhido na Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho, em Bangu. Thiago Fernandes Virtuoso, o Tio Comel, segue no Presídio Gabriel Ferreira de Castilho, na mesma região. Enquanto, Gildásio Esteves Lima permanece na Penitenciária Lemos Brito. Já Jefferson Dias Lino, o Rouba a Cena, cumpre prisão em regime domiciliar e se apresenta periodicamente ao Patronato Central Magarinos Torres, em Campo Grande. Segundo a SEAP, apenas Luciano da Silva Teixeira, conhecido como Sardinha da CDD, está foragido. Ele fugiu do sistema prisional em 16 de agosto, após receber benefício de visita periódica ao lar no Dia dos Pais.

Perfis dos alvos da CPI

Vinicius Sebastian dos Santos Catrinck, o “Capetão” foi preso em junho deste ano durante a Operação Torniquete, da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA). Capetão é apontado como elo entre assaltantes de vans e cargas da Zona Norte e a facção Terceiro Comando Puro (TCP), com forte atuação na comunidade da Quitanda, no Complexo da Pedreira.

Thiago Fernandes Virtuoso, o “Tio Comel” é considerado o maior ladrão e clonador de veículos do estado. O Tio Comel, aos 35 anos, tem 48 anotações criminais e dez mandados de prisão. Desde a primeira acusação, por tentativa de homicídio, aos 18 anos, acumulou processos por tráfico, roubo majorado e organização criminosa. Virou especialista em clonagem: segundo investigadores, ele atuava adulterando chassi e motor de um carro em até quatro horas, revendendo veículos de R$ 150 mil por cerca de R$ 100 mil, muitas vezes para outros estados ou países vizinhos. Um dos crimes atribuídos ao seu grupo resultou na morte do médico Cláudio Marsili, em 2021, na Barra da Tijuca.

Já Gildásio Esteves Lima, de 61 anos, é um dos mais antigos ladrões de carros do Rio. Com longa ficha criminal, Gildásio somava 32 anotações criminais e diversos reingressos no sistema penitenciário desde 1993. Aos 61 anos, ele seguia praticando crimes a mão armada até este ano, com a ajuda de um comparsa, que também foi detido pelos agentes. Contra eles, foram cumpridos mandados de prisão temporária pelo crime de roubo, cometido mediante concurso de pessoas. A dupla era conhecida por roubos de veículos no bairro de Botafogo, na Zona Sul do Rio, e nas regiões no entorno. A identificação dos dois foi feita após investigações com imagens dos crimes.

O criminoso foi preso no Catete, Zona Sul, acusado de integrar uma quadrilha que realizava uma série de assaltos a motoristas na Barra da Tijuca. Vídeos mostram o bando roubando carros e rendendo clientes de pousadas. A polícia acredita que novas vítimas possam reconhecê-lo após a divulgação das imagens.

Luciano da Silva Teixeira, o “Sardinha da CDD”, é ligado ao Comando Vermelho e considerado de alta periculosidade. Sardinha cumpria pena de 24 anos por homicídio, tráfico e outros crimes. Beneficiado com visita periódica ao lar, deixou o Instituto Penal Benjamim de Moraes Filho em 10 de agosto e não retornou, tornando-se foragido. Ele é apontado pela Polícia Civil como homem de confiança de Ederson José Gonçalves Leite, o Sam, chefe do tráfico na Cidade de Deus. A CPI das Câmeras investiga a atuação dele nos roubos de carros do Rio.

Jefferson Dias Lino, o “Rouba Cena”, é o terceiro na hierarquia do tráfico da Vila Aliança, na Zona Oeste do Rio, comandada pelo Teceiro Comando Puro (TCP). Rouba Cena, segundo a polícia, também lucrava com roubos e clonagem de veículos. Preso em 2014, exibia armas e carros em redes sociais e hoje cumpre prisão domiciliar. Investigações apontam que ele mantém uma “fábrica de clonagem” de carros na comunidade, abastecendo milicianos e revendendo veículos adulterados em grupos da internet.

Empresas de proteção veicular na mira

Além dos depoimentos de criminosos, a CPI determinou, na sessão da última segunda-feira (8), a condução coercitiva de representantes de empresas de proteção veicular que não compareceram às convocações. Entre elas, Carla Conceição Barbosa, sócia da associação Pontual Clube de Benefícios, e Ronald Nazário da Silva, presidente da Mais Prime Clube de Benefícios.

Segundo o presidente da comissão, Alexandre Knoploch, a investigação vai além das câmeras de videomonitoramento: “Queremos entender como quadrilhas e empresas de proteção veicular se beneficiam financeiramente da alta incidência de roubos de carros no estado”.

A CPI já intimou 21 das 449 associações que atuam sem regulamentação no Rio. Algumas não enviaram representantes, o que motivou pedidos de condução coercitiva. As próximas sessões devem detalhar as ligações entre criminosos e companhias que, supostamente, lucram com a recuperação de veículos roubados.

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